Cristianismo Ortodoxo: A morte para o Ego

"Você não deve se perturbar com muitas coisas, mas deve se preparar para o principal , para a morte"

<<Você não deve se perturbar com muitas coisas, mas deve se preparar para o principal, para a morte.>>

Recentemente perguntei no grupo Estudos sobre a Ortodoxia (Cristianismo Ortodoxo) se para os cristãos cuja doutrina prega que hoje vivemos numa realidade decaída (consequência da queda de Adão e Eva) é um erro falar coisas como “não gostaria de existir aqui, quero morrer logo para essa vida” – sendo esse não um pensamento suicida, mas antes um apelo à tudo de ruim que acontece nesse mundo, quer dizer, na Terra tal como está hoje, no mundo e na ignorância, dualidade, corrupção e temporalidade que nele há.

Donde o cristão ortodoxo recifense Tony Pedroza me respondeu:

Negar o mundo por completo certamente é um erro comum aos antigos gnósticos (que focam tanto na transcendência divina que negam o mundo), mas afirmar o mundo completamente (isto é, absolutizá-lo) é um erro comum aos panteístas (que focam tanto no mundo/imanência que negam Deus transcendente). Por mais contrário a lógica que possa parecer, o mundo “é” e “não é” ao mesmo tempo, assim como Deus é Transcendente e Imanente ao mesmo tempo.

A única ‘saída’ é interpretar o mundo como uma imagem de Deus (Deus se “exteriorizou” ao criar o cosmos, não sua essência, que é inefável, mas ‘algo’ dele). A natureza é composta por símbolos [1], que, uma vez considerados em si mesmos (a natureza desligada de uma fonte transcendente) não possuem sentido (daí o niilismo ocidental, onde a natureza não tem significado nenhum, perdendo toda sua dignidade, consequentemente, fazendo com que o homem sinta-se no direito de destruí-la, explorá-la como um objeto qualquer sob sua ‘posse’).

A natureza/mundo visto sob um ponto de vista como “algo” de Deus (mas não ele completamente, pois teria como consequência o panteísmo) é o que devemos buscar. A meta é ver Deus em todas as coisas, a criação como símbolo de Deus, sempre nos lembrando Dele. W. Blake escreve sobre ver Deus em todas as coisas:

Veja o mundo num grão de areia, veja o céu em um campo florido, guarde o infinito na palma da mão, e a eternidade em uma hora de vida!

Deus não poderia criar algo completamente fora Dele (isso seria um absurdo), portanto, de certa forma é “legítimo” rejeitar certa parte do mundo, aquela parte contrária a Deus. São Isaac, o Sírio descrevendo o “mundo” a ser rejeitado, diz:

O “mundo” é o nome genérico dado para todas as paixões. Quando queremos chamar as paixões por um nome comum, chamamos de mundo. Mas quando queremos distingui-las por seus nomes especiais, chamamos-lhes de paixões. As paixões são as seguintes: amor às riquezas, desejos de posse, prazeres corporais de onde vem a paixão sexual, o amor a honra que dá origem a inveja, a cobiça pelo poder, a arrogância e o orgulho, o desejo de adornar-se com as roupas de luxo e ornamentos vãos, o desejo pela glória humana, que é a fonte de rancor, ressentimento e medo físico. Quando essas paixões deixam de estar ativas, o mundo está morto; pois, embora vivendo na carne, elas não vivem para a carne. Observe você para qual dessas paixões você está vivo. Então você vai saber até onde você está vivo para o mundo, e quão distante você está morto para ele.

E o teólogo ortodoxo Vladimir Lossky inteira:

A renúncia ao mundo é, portanto, uma re-entrada da alma em si mesma, uma concentração, uma reintegração do ser espiritual, o seu retorno à comunhão com Deus. Esta conversão é um ato-livre, assim como o pecado, também, é uma separação voluntária de Deus; e a conversão, neste sentido, pode ser definida como um esforço constante da vontade em voltar-se para Deus.

No entanto, para ver Deus em todas as coisas é necessário o discernimento entre o que é Deus e o que não é Deus. E isto está longe de ser algo simples e disponível a todos. É algo que poucos possuem, e para obter tal discernimento é requerido não um conhecimento livresco/teórico, mas um conhecimento unitivo e vivificante, fruto de uma vida litúrgica, ascética e “combativa”. Esse é o único conhecimento que realmente vale buscar. Na ausência de tal conhecimento, sofremos pois não sabemos tomar as decisões corretas (embora nos enganemos ao pensar que temos total controle sob nossas decisões): não temos um discernimento verdadeiro, nossos pensamentos/gostos/paixões nublam nosso intelecto (coração) e sempre escolhemos o que achamos que é bom. O pedido no fim do Pai Nosso seja feita Tua Vontade reflete isso, um estado de total submissão à Vontade Divina, um abandono nas mãos de Deus. Contudo, nosso Ego fará de tudo para fugir desse abandono, pois o ego está constantemente buscando segurança/conforto, não existe medo maior para o ego do que negar nossa própria vontade e entregá-la a Deus. Essa atitude é a morte para o ego. Mas tal morte é desejável, é o caminho da Cruz, pois como diz o famoso ditado, precisamos “morrer” antes de morrer.

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Categoria: Cristianismo, Espiritualidade

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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