Por que (não) é preciso ser feliz consigo antes de namorar

| 17/07/2016 | 4 Comentários
Cena do filme "Os amantes do Café Flore” - Imagem meramente ilustrativa

A imagem, cena do filme “Os amantes do Café Flore”, exemplifica uma relação existencialista a partir de uma mulher, Simone de Beauvoir, que perguntava se é possível encontrar num relacionamento felicidade e liberdade.

Tenho lido muito da geração new age o juízo de que antes de entrar num relacionamento é preciso ser feliz sozinho. Comecei então a perceber que a felicidade se tornou hoje uma espécie de imperativo subjetivo e solitário: se você aceitar seu corpo tal como ele é, se cuidar da sua saúde, se reconhecer e amar suas qualidades e defeitos, se estudar e trabalhar com aquilo que gosta, se fizer algo bom para o mundo e para o próximo – então será feliz tal como todos têm o direito de ser. Ora, esses dizeres podem até seduzir os olhos e ouvidos, no entanto, são tão falsos quanto as propagandas de tv e os manuais de autoajuda.

No mundo real (onde piso e sinto a vida) encontrei muitas pessoas velhas e novas que são enamoradas, casadas, têm até bons filhos e bons lares, mas são melancólicas ou instáveis; na realidade, se querem saber, nunca conheci ninguém realmente feliz. Conheci inclusive muita gente que ama o próprio corpo, come do bom e do melhor, tem uma/um bom analista, ama o que faz (para si, para os amigos e desconhecidos necessitados) mas carrega consigo uma tristeza profunda, uma aporia de vida, um vazio existencial. O que dizer sobre isso? Será que as pessoas que consciente ou inconscientemente se deparam com um gigantesco abismo cósmico não podem permanecer com alguém?

Negativo; eu particularmente penso que até dá para se amar e conhecer uma parcela do que se é. Contudo, quanto a encontrar um sentido para a vida (principalmente sozinho/a), isso é matéria para os egoístas ou ao contrário, os utopistas, os que “não estão em lugar nenhum”, negam completamente o eu e por conseguinte o realismo d’este mundo. Com efeito, o sentido da vida não está no sujeito: a vida não tem sentido algum. Tirem as ideologias, os devaneios, a religião, a moral… e o que encontrarão será tão-só a inconcretude, o vazio. Quando alguém enxerga um sentido na vida, não enxerga sentido; mas uma significação fenomenologicamente atribuída (e ontologicamente vazia).

Por isso há sim gente que encontra sentido no universo new age (que a faz happy and good vibes para só depois de “se encontrar” “poder” amar alguém); mas isso é uma atribuição de segunda ordem, ou seja, não vem essencialmente de dentro. E, ao contrário, há gente do senso comum, que precisou trabalhar desde cedo, que não gosta de ler, que não conhece nada de meditação nem de psicoterapia, que não gosta de arte nem de falar sobre si; há gente que não teve tempo, vontade e/ou sabedoria para ser feliz consigo. Na realidade, existe até quem sabe muito mas acha que atribuir qualquer sentido à vida é uma quimera; e esse sujeito geralmente é um sujeito crítico-niilista, que acaba por levar uma existência melancólica, de pouco entusiasmo, pouca aventura, pouca magia – e por que ele não teria também o “direito” de ter consigo uma ou um companheiro para desfrutar de um prazeroso relacionamento cheio de angústia, incerteza, tristeza e ausência de sentido?

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Categoria: Espiritualidade, Existência, Literatura e Cinema

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou um pseudônimo do meu nome próprio, de uns vinte e tantos anos, duas dezenas de existência, umas centenas de angústia.

Comentários (4)

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  1. “A geração new age e o imperialismo da felicidade”

  2. Evaldo Pereira de Rezende disse:

    “gente que ama o próprio corpo, come do bom e do melhor, tem uma/um bom analista, ama o que faz (para si, para os amigos e desconhecidos necessitados) mas carrega consigo uma tristeza profunda, uma aporia de vida, um vazio existencial” – Definição sucinta e excelente de um dos grandes males que atingem a humanidade no presente século: a depressão

  3. Elan Marinho disse:

    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que somos Sísifo, amaldiçoados a rolar uma pedra em direção ao cume de uma montanha até que, ao chegar lá, ela role até a base e voltemos a empurrá-la na esperança de que ela permaneça no topo. Um alemão de calvície alada lhe diria que “a vida é um pêndulo que oscila entre o enfado e o aborrecimento”. Se não estamos aborrecidos por não possuir aquilo que queremos, estamos entediados por termos conseguido aquilo que queríamos. Quando aquilo que é desejado é alcançado, não se encontra satisfação, mas sim tédio e, às vezes, até mesmo frustração. Quiçá, a gente dê uma reladinha em algo que podemos chamar de felicidade nesse vai-e-vem. A Filosofia dificilmente nos ensinará qual é o sentido da vida, mas ela tem nos ensinado insistentemente qual NÃO É esse sentido e quais são as formas mais burras de tentar encontrá-lo – igualando aqui, é claro, a questão sobre “qual é o sentido da vida” à indagação quanto a “como encontrar a felicidade”.

    Ocorre que, “vida feliz” e “vida triste” são expressões que só fazem sentido de acordo com um referencial. Eu acho seu argumento estranho justamente porque ele parece não perceber isso. Quando você diz “nunca conheci ninguém realmente feliz” é como se eu lesse “eu nunca conheci um prédio realmente grande” ou “eu nunca conheci uma cadeira realmente pequena”. No caso desses exemplos, eu sei quais são os prováveis referenciais em jogo. No primeiro, um prédio médio. No segundo, uma cadeira média. E com “média” me refiro a algo como uma média aritmética mesmo. Ora, seguindo essa linha de raciocínio (e partindo da premissa de que felicidade é, teoricamente, quantificável, embora não seja na prática por conta da falta de controle sobre a quantidade de variáveis envolvidas e do problema de sua demarcação) uma vida feliz só existe de acordo com um referencial. Isto é, a vida de Maria é feliz quando comparada à vida de Alberto. Só que a vida de Alberto é triste comparada à vida de Suzana. A meu ver, é evidente que existe um nível de felicidade médio ou um tipo médio de felicidade. Ora, para que exista um tipo médio – admitindo-se, é claro, que a diversidade de níveis de felicidade é suficiente para isso –, é necessário que exista não só tipos que sejam mais felizes que essa média como também tipos que sejam menos felizes. Desse ponto de vista, não vejo muito sentido em dizer que “nunca conheci ninguém realmente feliz” se se iguala essa sentença a “provavelmente não existem pessoas realmente felizes”. Quer dizer, as pessoas geralmente não são tão “felizes” quanto gostariam de ser – porque a vida é o supramencionado pêndulo do enfado ao aborrecimento. Agora, que ninguém é realmente satisfeito com o que tem, ou seja, que ninguém realmente levou a pedra ao cume, isso sim, concordo. Se, por conseguinte, você quis igualar “felicidade“ à “satisfação”, ignore minha crítica a sua frase.

    Existem partes da vida que podemos dizer que nos fazem felizes – e, nesse caso, pouco importa o sentido de felicidade que estou propondo. Quando dizemos que amamos alguma coisa (como o emprego, o namorado, o filho, a coleção de jogos, de livros, de vibradores etc.) estamos querendo, na verdade, asseverar que essas coisas nos fazem felizes e que, por conseguinte, perdê-las diminuiria nosso grau de felicidade. É aí que se situa o ponto onde ser feliz consigo mesmo antes de namorar faz COMPLETO SENTIDO. Se existem fontes de felicidade ou meios pelos quais podemos garantir nosso elixir de dopamina, ocitocina e serotonina, esses meios devem ser estáveis. Em outras palavras, é um mal negócio criar dependência com fontes de felicidade instáveis. Estabelecer um relacionamento é como empreender. Não faz sentido investir num negócio de bases instáveis, em que a probabilidade de dar certo e render lucro a longo prazo dependem de inúmeros fatores atuando em conjunto. Um relacionamento depende de um tipo especial de sincronia de interesses, de personalidades, de valores, de gostos etc. entre seres humanos que não é fácil de se alcançar. As pessoas mudam o tempo inteiro. E, com elas, também mudam os interesses, personalidades, valores, gostos etc. Observe que, assim, parece justo comparar um relacionamento a jogar na loteria. É uma aposta. Namorar sem antes “ser feliz consigo mesmo” é quase que como decidir jogar na loteria todo mês como modo de garantir um salário. Não dá pra depender disso, sabe? Em síntese, da próxima vez que alguém lhe aconselhar sobre como é necessário ser feliz consigo mesmo antes de namorar, entenda isso como: É aconselhável estabelecer fontes de felicidade seguras antes de se arriscar no estabelecimento com uma insegura, porque, ao se deparar com a probabilíssima perda dessa fonte de felicidade, você não ficará a esmo, na rua da amargura ou ouvindo “você não me ensinou a te esquecer” no canto de um quarto escuro a chorar enquanto assiste em slide as fotos com o antigo amor.

    • hahahah

      Seu comentário dá um bom (e longo) escrito, Elan. É quase um post dentro d’outro post…

      Nota: Adorei como você o finalizou: “da próxima vez que alguém lhe aconselhar sobre como é necessário ser feliz consigo mesmo antes de namorar, entenda isso como: É aconselhável estabelecer fontes de felicidade seguras antes de se arriscar no estabelecimento com uma insegura”.

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