Transgêneros nas tribos norte-americanas

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Squaw Jim da tribo Crow (Corvo), vestido como mulher, e sua esposa. Possivelmente a primeira foto de um homossexual/travesti da história. Ele tinha grande status social na sua tribo, e obteve sua reputação de bravura após participar como batedor no salvamento de um colega de tribo na “Batalha de Rosebud”, em 1876. Foto de John H. Fouch, 1877.

A ideia de uma alma masculina ou feminina num corpo trocado é tão natural que mesmo em culturas que nunca se misturaram ela está presente. Em 1530, o explorador espanhol Cabeza de Vaca escreveu em seu diário sobre machos indígenas nativos “macios”, nas tribos da Florida, vestindo-se e trabalhando como as mulheres. Essa variação de gênero não foi tolerada pelos conquistadores, e foi combatida. As crenças dos indígenas é a de que algumas pessoas nascem com os espíritos de ambos os sexos e podem expressá-los perfeitamente. É como se eles tivessem dois espíritos em um corpo. Algumas tribos Siouan acreditam que antes de uma criança nascer sua alma fica perante o criador e deve pegar da mão dele um arco e flechas (que indicam o seu papel como homem) ou um cesto (que irá determinar o seu papel como uma mulher). Para eles, quando nasce um transgênero é porque deus trocou as mãos e assim a criança recebeu um papel oposto ao do seu gênero. É uma lenda interessante pois fica claro que não foi uma escolha da pessoa nascer assim, algo que até hoje, mesmo com todo a nossa “civilização”, muitos se recusam a perceber.

Cada tribo norte-americana tem seu próprio termo pra descrever essas pessoas. Os Navajo chamam de Nádleehí (“Aquele que foi transformado“), entre os Lakota é Winkté (indicativo do homem com compulsão de se comportar como fêmea); entre os Ojibwe, Niizh Manidoowag (“Dois espíritos“); entre os Cheyenne, Hemaneh (“Meio homem, meio mulher“). Em 1989 foi adotado o termo Dois espíritos (ou duplo-espírito) entre as comunidades indígenas LGBT como forma de padrão.

Nativos americanos tradicionalmente não atribuem nenhum julgamento moral para o amor ou a sexualidade; uma pessoa é julgada por suas contribuições para a sua tribo e pelo seu caráter. Também era um costume para os pais não interferir com a natureza e, portanto, entre algumas tribos, as crianças usavam roupas neutras até que chegassem numa idade onde eles decidiram por si mesmos por qual caminho eles andariam e então as cerimônias apropriadas eram conduzidas. As pessoas de duplo-espírito na América nativa foram altamente reverenciadas e famílias que os tinham eram consideradas sortudas, pois os índios acreditavam que uma pessoa que é capaz de ver o mundo através dos olhos de ambos os sexos é um presente do criador. Tradicionalmente eles ocupavam cargos de grande respeito, tais como xamãs, visionários, guardiões das tradições orais e da tribo. Mas não estavam acima dos perigos que rondavam essa profissão. Na tribo Mojave, por exemplo, duplo-espíritos freqüentemente tornam-se pessoas de medicina e, como todos os que lidam com o sobrenatural, corriam o risco de morte por suspeita de bruxaria ou falha de colheita.

Os nativos associavam sempre os de duplo-espírito com atividades intelectuais e artísticas, e também a uma capacidade excepcional para a compaixão, portanto eram usados como enfermeiros durante expedições de guerra, cozinheiros, casamenteiros e conselheiros matrimoniais, fabricantes de ornamentos pras festividades, ceramistas, tecelões, cantores/artistas, além de adotar crianças órfãs e cuidar dos idosos. Fêmeas de de duplo-espírito eram caçadoras, guerreiras, envolvidas no que era tipicamente o trabalho de homens. Mas isso não impedia os machos de duplo-espírito de participarem de tradições reservadas a homens, como a “Tenda do suor”, ou mesmo ir para a guerra. No entanto, eles tinham mais papéis femininos, como cozinhar, limpeza e outras responsabilidades domésticas. Em vez de serem condenados sociais, como na cultura Euro-americana hoje, eles eram autorizados a participar plenamente das estruturas sociais tribais tradicionais. Fêmeas de duplo-espírito (biologicamente feminino, gênero do sexo masculino) da tribo Lakota normalmente só tinham relações ou casamentos com fêmeas, às vezes em um relacionamento com uma mulher cujo marido tinha morrido. Machos de duplo-espírito consideravam-se “irmãs” entre eles, e especula-se que podia ser visto como incestuosa a relação entre um e outro (dentro da cultura Lakota era considerado altamente ofensivo abordar um duplo-espírito para efeitos de executar o papel tradicional do seu sexo biológico).

Em 1712 o Coronel Barnwell da Carolina do Sul atacou os Tuscaroras, na Carolina do Norte. As tropas de Barnwell foram surpreendidas ao descobrir que os mais ferozes dos guerreiros Tuscarora eram as mulheres, que não se rendiam “até que a maioria delas tenha posta à espada.” Era um costume Iroquois colocar duplo-espíritos na linha de frente das batalhas para assustar o inimigo. Um homem com roupas de mulher e uma mulher guerreira eram tão assustadores para Euro-americanos da época como ainda são agora.

Com a colonização, o costume cristão foi sendo adotado e os preconceitos de fora, também. O explorador Vasco Núñez de Balboa encontrou homossexuais entre os chefes nativo-americanos em 1594, no Panama. Ele ordenou que esses 40 duplo-espíritos fossem jogados aos cachorros, para serem comidos vivos. A imposição de leis de casamento eurocêntricas invalidou os casamentos homossexuais dos indígenas. No início de 1900 afirmou-se que não havia nenhum gênero alternativo entre a seis nações Iroquois/Haudenosaunee, apesar da documentação e histórias orais. A maioria, se não todas as tribos, foram influenciadas por preconceitos europeus.


Este texto foi originalmente publicado em 29 de jun. de 2016 no sitio Saindo da Matrix com o título “Transgêneros em outras culturas”. O autor usou como referências três outros escritos de seu blog (“Homossexualidade“, “Amai os homossexuais como a ti mesmo” e “Osho – Homossexualidade“) e os textos “Two Spirits, One Heart, Five Genders” do Today Media Network e “Two-spirit Native Americans bridge genders on Columbus Day” do Jesus In LoveA versão publicada aqui é uma adaptação resumida deste escrito.

 

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Categoria: Cotidiano, Ética e Cidadania, Mitologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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