Confissão Primeira

Em homenagem a Santo Agostinho, que no ano 430 morreu na mesma data que marcou este domingo (28 de agosto), decido fazer uma confissão virtual acerca do meu dia.

São 03:13 da manhã e, em renúncia provisória do meu sono, ainda não dormi por estudar para um projeto de pesquisa. Confesso que 24 horas não me está sendo tempo suficiente para cuidar de mim intelectual, espiritual, física e socialmente.

Espero por sapiência para livrar-me dos maus hábitos. No entanto, em virtude da falta de tempo, isto me está sendo difícil. Ando aprendendo ser preciso escolher, por mais deseducado que pareça, entre ter muitos amigos ou estudar. Peço desculpas por não vê-los, é o problema das 24 horas (ando carente de segundos)…

Ainda neste sábado uma amiga minha de João Pessoa veio a Recife e não pude vê-la, pois estudava tanto quanto deveria. Caso saísse de casa, cumpriria minha meta como amiga, descumprindo-a como estudante.

Hoje, do mesmo modo, reconhecendo a necessidade de ler durante uma parte considerável do dia – são os tempos finais do meu projeto, todavia, sei que logo em seguida um novo ciclo se inciará (o fim é o começo) -, fui impelida a faltar o aniversário do meu tio e também a Igreja.

Curioso que não fui à missa, no entanto, estive a estudar horas e mais horas um dos Pais da Igreja; o que decerto é um erro para a prática da teologia orante, mas, por outro lado, um aprendizado considerável para uma jovem de 20 anos que deseja terminar a sua faculdade em Filosofia – ando, confesso, por mais absurdo que pareça, “escolarizando a Patrística”; uma pena, decerto; uma consequência, é certo…

Hoje a Universidade e seus arredores tomam quase todo o meu tempo e, por mais que eu tente e decerto tenho me esforçado, me é difícil dedicar-me à sabedoria prática. Minhas orações estão inconstantes, peço perdão. A respeito da prática, resta-me me contentar em não mais roer unhas, comer bem (a começar pela inclusão substancial de verduras), abdicar do álcool (que nunca me foi um grande interesse) e tudo o mais que já tenho feito e confessado por aí.

Trago agora uma observação póstuma porém válida. Na prática, tenho me dedicado a algo (um único algo, diga-se de passagem) com empenho de tempo: são os exercícios físicos, que tenho conseguido realizar ao menos três vezes na semana (ufa!).

Eis que minhas prioridades manifestas andam sendo os exercícios e os estudos; eis que minhas prioridades não-manifestas são o espírito e os amigos; eis que me permeia a dúvida: e o resto?

Devo incluir o mundo na minha vida?

Eu não sei.

Mas pondero que sou genuinamente, em primeiro lugar, mais carente de Deus. Em segundo, de tempo. E por último, quiçá, de alguma coisa remota e aventurante do mundo – só não tenho tempo de pensar sobre o que seria ela.

Pensar? Se me resta tempo, penso na existência que tenho; aquela que deseja tão-só que Agostinho por mim ore, para que eu conclua minha faculdade e enfim, deixe de ser uma mera entidade escolarizada no campo do Logos (com pouca contemplação efetiva).

Que Agostinho me ajude, se for possível, a ter tempo, ainda que não saibamos o que ele é quando dele falamos…

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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