A teologia antropológica e a filosofia do futuro de Feuerbach

Apêndice d’Essência do Cristianismo:

“O meu livro contém, disse-o acima,
o princípio desenvolvido in concreto
de uma filosofia nova,
não dirigida à escola,
mas ao homem.”

Ludwig Andreas Feuerbach (1804 — 1872)

Na grande Heidelberg, situada no vale do rio Neckar, na Alemanha, o jovem Feuerbach, tendo sido educado no protestantismo, concluiu seu curso de Teologia, mas adiante, detendo-se à Filosofia, veio a se tornar um hegeliano convicto. É por isso (e também por sua história subsequente) que Engels, em comentário ao filósofo no Fim da Filosofia Clássica Alemã, afirma que “A trajetória (…) [do mesmo] é de um hegeliano – não inteiramente ortodoxo, é verdade – que marcha para o materialismo. Trajetória que, ao chegar a uma determinada fase, implica numa ruptura total com o sistema idealista de seu predecessor” [1][2], caminhando assim para uma espécie de ateísmo humanista, ou melhor dizendo, de teologia antropológica.

Um segundo comentário à antropologia de Feuerbach, dessa vez advindo de Lima Vaz, descreve-a enquanto uma “‘Desmitologização’ da teologia, operada por meio da reversão sobre o próprio homem da projeção imaginária da qual resultam a ideia de Deus e todas as representações da dogmática cristã. O antropocentrismo de Feuerbach será, pois, um antropoteísmo: o homem é o único deus para o homem” [3], “teologia é antropologia” [4] e os atributos de Deus não são essencialmente divinos mas antes, uma hipérbole dos atributos humanos porquanto “O homem só atribui a Deus aquilo que considera divino em sua própria natureza” [5].

Nesse sentido, é Deus, e não o inverso, quem foi feito à imagem e semelhança do homem:

Deus, dizem os cristãos, não é um objeto dos sentidos, ele não pode ser visto nem percebido, mas não é também um objeto da razão, dizem pelo menos os cristãos ortodoxos, porque a razão só se baseia nos sentidos; Deus não pode ser provado, ele só pode ser crido, ou Deus não existe nos sentidos, na razão, ele só existe na fé, isto é, ele só existe na imaginação (…) [Portanto,] todo Deus é uma entidade da imaginação, uma imagem, e na verdade uma imagem do homem. (FEUERBACH. Preleções sobre a essência da religião)

Eis que, em percepção própria do lema iluminista – e kantiano por excelência – Sapere aude (“ouse saber”, “atreva-se a saber”, “tenha a coragem de usar o seu próprio entendimento”), Feuerbach traz  à filosofia uma perspectiva singular segundo a qual homem algum pode ser pensado em termos universais, antes, o homem é concretude de existência e essência tão particular como temporal e/ou histórica. Por isso comenta Francisco de Lima: “A confluência precípua entre a filosofia de Feuerbach e a secularização (…) estrutura-se, sobretudo, mediante a ideia que o homem moderno deve gerir de modo autárquico seu processo histórico, sem depender de uma força transcendente criadora e demiúrgica que pudesse conferir sentido ao mundo. Tanto para Feuerbach como para a plataforma de sustentação ideológica da secularização, o sentido da vida e do mundo é algo que remete ao próprio homem, à sua subjetividade, ao ser social e à sua historicidade – uma cosmovisão advinda do processo de ruptura com o modo de pensar teocêntrico e espiritualista medieval, ruptura esta emergida dentro do renascimento, do racionalismo e do empirismo, e, ulteriormente, fortalecido dentro de correntes filosóficas mais próximas ao desenvolvimento da filosofia feuerbachiana como é o caso do iluminismo e do materialismo histórico marxiano (…) A meta é trazer o homem de volta a si, à comunidade, ao mundo, à história e, ipso facto, à concretude da vida. Para isso, é necessário secularizar” [6].

Mas secularizar como? Ora, com certos Princípios da Filosofia do Futuro segundo os quais “O Cristianismo já não corresponde nem ao homem teórico, nem ao homem prático; já não satisfaz o espírito, nem sequer também satisfaz o coração, porque temos outros interesses para o nosso coração diversos da beatitude celeste e eterna”. Razão pela qual – diz o filósofo – a Filosofia do Futuro deve atender à necessidade da época, da humanidade: “A necessidade de conservação é apenas uma necessidade artificial, criada – é apenas uma reação”. A exigência do futuro, ao contrário, é negativa e por ser de tal modo “tem a força para criar a novidade”.

Para o lugar da fé, entrou a descrença; para o lugar da Bíblia, a razão; para o lugar da religião e da Igreja, a política; a terra substituiu o céu, o trabalho substituiu a oração, a necessidade material o inferno, o homem o cristão (…) O que para a filosofia é resultado do pensamento, é para nós certeza imediata. Necessitamos, pois, de um princípio conforme a esta imediatidade. Se, na prática, o homem entrou para o lugar do cristão, então também no plano teórico o ser humano deve substituir o divino. Em suma, devemos resumir num princípio supremo, num vocábulo supremo, aquilo em que queremos tornar-nos: só assim santificamos a nossa vida, fundamentamos a nossa tendência. Só assim nos libertamos da contradição que, presentemente, envenena o mais íntimo de nós mesmos: da contradição entre a nossa vida e o nosso pensamento e uma religião radicalmente contrária a esta vida e a este pensamento. Devemos, pois, tornar-nos novamente religiosos– a política deve tornar-se a nossa religião – mas ela só pode tornar-se tal se tivermos na nossa intuição um princípio supremo que consiga transformar a política em religião (…) Este princípio expresso negativamente é apenas o ateísmo, isto é, o abandono de um Deus distinto do homem.

Por fim, em observância disso, Feuerbach toma o Estado como a soma de todas as realidades, ou ainda, como a providência do homem. Nas palavras do filósofo: “O Estado é o homem ilimitado, infinito, verdadeiro, completo, divino. Só o Estado é o homem – o Estado é o homem que determina a si mesmo, o homem que se refere a si próprio, o homem absoluto”. E isso – uma acção nova e autônoma da humanidade – “vale sobretudo para a doutrina da liberdade“, pois só esta nova filosofia, ao unir-se com a ciência da natureza, conseguirá naturalizar a liberdade, que até então era uma hipótese anti e supranaturalista.


Notas

[1] ENGELS, F. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. In: MARX, K.; ENGELS, F. Textos. São Paulo: Edições Sociais, 1977. v. 1. P. 91-92.
[2] Cf. ESPÍNDOLA, Arlei de. Feuerbach: da crítica da religião à defesa da dignidade humana. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 3-8, jan./jun. 2011.
[3] Cf. VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia Filosófica. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola. 2000. Volume I. In: MORAIS, José. A teologia antropológica de Ludwig Feuerbach. Revista de Cultura Teológica. Ano XXII, No 83, Jan/Jun 2014.
[4] Cf. MEDEIROS, Gustavo de. A reforma da filosofia em Feuerbach e o Iluminismo. Disponível em: http://www.uel.br/eventos/sepech/sepech12/arqtxt/PDF/guhmedeiros.pdf. Acesso em: 15/09/2016.
[5] BECKENKAMP, Joãozinho. Seis Modernos. Pelotas: Editora Universitária/UFPel, 2005.
[6] LIMA, Francisco. Feuerbach e o processo de secularização ocidental. Outra margem: revista de filosofia, Belo Horizonte, n. 2, 1º semestre de 2015.

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Categoria: Cristianismo, Filosofia da Religião, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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