O conceito de Logos em Heidegger

Martin Heidegger (1889 — 1976)

Martin Heidegger (1889 — 1976)

Uma das propostas fundamentais de Heidegger é desobstruir a polissemia do conceito de logos. Eis como, à sua maneira, a filosofia heideggeriana se volta à anterioridade do logos apofântico[1] que, ao contrário de vislumbrar o ser simplesmente dado (vorhanden), se atenta ao contexto de cada coisa em sua relação com a totalidade. O sujeito então passa a se inserir na própria questão filosófica em que se põe; e nesse sentido a aletheia (verdade; “a” de, negação; e “lethe”, de esquecimento) “perpassa o sujeito que, ao compreender algo, está compreendendo a si mesmo”[2]. Portanto, para Heidegger, a aletheia/verdade é distinta da sua conceituação comum – segue-se que ela tem o sentido originário grego de <<desvelamento>>. Diz ele:

O logos faz e deixa ver aquilo sobre o que se discorre e o faz para quem fala e para todos aqueles que falam uns com os outros. A fala “deixa e faz ver” a partir daquilo sobre o que fala. A fala autêntica é aquela que retira o que diz daquilo sobre o que fala, de tal maneira que, em sua fala, a comunicação falada revele e, assim, torne acessível aos outros aquilo sobre o que fala (…) Em seu exercício concreto, a fala (deixar ver) tem o caráter de um dizer, de uma articulação de palavras. O logos, portanto, é (…) a articulação verbal em que algo é visualizado. (Ser e Tempo, O Conceito de Logos [32]).

E é somente porque o logos é um “deixar e fazer ver” que é possível nele encontrar o verdadeiro ou o falso; sendo a verdade o que traduz, o que ajuda a des-cobrir algo; e a falsidade o que faz enganar a percepção no sentido de en-cobrir, de colocar uma coisa na frente de outra e assim “propô-la como algo que ela não é”. Assim, ele traduz: “A percepção é sempre verdadeira. Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons”. Verdadeiro, no sentido heideggeriano mais puro e originário, é aquilo que descobre e nunca encobre, é “a percepção que percebe singelamente as determinações mais simples do ser dos entes como tais”.

Por isso, em sua filosofia, “tanto o realismo como o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade”. Para Heidegger, os filósofos com pretensões de verdades absolutas (ou mais especificamente de conhecer o ser simplesmente dado) não teriam considerado o sujeito como ponto decisivo do processo epistemológico; e por isso teriam caído no erro de objetivar o mundo pelo ser humano. A tarefa da hermenêutica, ao contrário, é tão-somente alcançar uma interpretação criativa e possível considerando o mundo a partir do ente. Eis como ele conclui:

A função do logos reside num puro deixar e fazer ver, deixar e fazer perceber o entes, é que logos pode significar razão. Porque se usa logos não apenas no sentido de legein[3], mas também no sentido (…) do que se mostra como tal, e porque este nada mais é do que (…) aquilo que, em todo dizer e em toda discussão, já está sempre presente como fundo e fundamento, logos enquanto legomenon significa ratio, fundamento. E, por fim, porque, enquanto legomenon, o logos pode também significar o que pode ser dito como algo que se tornou visível em sua relação com outra coisa, em sua racionalidade, por isso o logos assume a significação de relação e proporção. (Idem).


Notas

[1] Na lógica aristotélica, apofântico é relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.

[2] STEFANI, JAQUELINE. O Logos em Heidegger: Lógica, Verdade e Metafísica. Conjectura, v. 14, n. 1, jan./maio 2009.

[3] Legein é um verbo grego com uma amplitude e vigência do sentido do ser que desafia, historicamente, qualquer redução sua a significados semânticos. O verbo legein abre horizontes de sentido que dizem a própria dinâmica histórica do acontecer da realidade. E é isso que enriquece de uma maneira radical e originária o próprio vigorar do diálogo histórico das épocas ou gerações, e constitui ontologicamente a própria dialética. (Manuel Antônio de Castro; ver www.dicpoetica.letras.ufrj.br/index.php/Legein).

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia da Linguagem, Filosofia Moderna, Metafísica e Ontologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (5)

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  1. Vinícius Scarpin disse:

    Gostei bastante do seu texto.

    A questão do verdadeiro em Heidegger eu acho problemática. Concordo com a idéia de que para ele o falso está mais para o “en-coberto” do que o para o “errado”, por isso, também, ele muitas vezes apontou lá no nascimento da verdade como correspondência (adequação/concordância/etc.) que ela é a correção/correto ὀρθός (opondo-se ao erro).

    Mas eu tenho minhas dúvidas quanto ao tudo que se mostra em seu se mostrar ser verdadeiro. Até porque ele diz em algum lugar que agora me escapa onde, que à ἀλήθεια (desencobrimento) pertence o λανθάνειν (encobrimento), que é da própria essência da verdade o ocultar-se. Por isso penso que a verdade e/ou o verdadeiro não esteja “gratuitamente” dada(o), entregue.

    Mais tarde no Contribuições à Filosofia (Do acontecimento apropriativo) ele fala algumas vezes o que em Ser e tempo ele diz “sentido do ser”, agora como “verdade do ser”. Ele diz que “a verdade do ser é o ser da verdade”. E qual o ser da verdade para ele, se bem o entendo? É ἀλήθεια, isto é, a essência da ἀλήθεια é o ocultamento, mas não somente este, evidentemente.
    Em um aforismo das Contribuições ele diz que o Ser nunca se mostra e em algum lugar ele fala da co-pertinência entre Ser e ἀλήθεια. Ou seja, se bem o acompanho, o Ser ilumina os entes, dá sua luz aos entes, e esse iluminar, por sua vez, já sempre oculta, esconde.

    A própria diferença ontológica é algo oculto.

    Me desculpe por me alongar e divagar e talvez não ter chegado a lugar algum.

  2. Vinícius Scarpin disse:

    Sim. Você tem razão. Há uma certa descontinuidade no pensamento dele.

    Eu tinha aqui já um trecho interessante digitalizado a partir do livro, o reli e lembrei desse seu texto.

    “136. O seer

    Seer – a estranha crença equivocada em que o seer precisaria sempre “ser” e em que quanto mais constantemente e duradouramente ele fosse, tanto mais “essente” ele seria.

    Mas em primeiro lugar, o seer em geral não “é”, mas se essencia.

    E, em segundo lugar, o seer é o que há de mais raro e único, e ninguém tem como avaliar os pontos instantes, nos quais ele funda para si um sítio e se essencia.

    Como é que se chega ao fato de que o homem se equivoca em relação ao seer? Porque ele precisa se ver exposto ao ente, a fim de experimentar a verdade do seer. Nessa exposição, o ente é o verdadeiro, o aberto; e isso porque o seer se essencia como o que se encobre.

    Assim, o homem se mantém no ente e se torna útil ao ente, caindo como uma presa no esquecimento do seer; e, em verdade, tudo isso sob a aparência de realizar o que há de próprio e de permanecer próximo do seer.

    Somente onde o seer se retém como o que se encobre é que o ente pode vir à tona e aparentemente dominar tudo, representando a única barreira contra o nada. E, não obstante, tudo isso se funda na verdade do seer. Mas, então, porém, a próxima e única consequência é deixar o seer e até mesmo esquecê-lo no velamento. Todavia: deixar o seer no velamento e experimentar o ser como o que se encobre são duas coisas fundamentalmente diversas. A experiência do seer, o suportar a sua verdade, traz, com certeza, o ente de volta para as suas barreiras e retira dele a aparente unicidade de seu primado. No entanto, assim ele não se torna menos essente, mas, ao contrário, mais essente, isto é, mais essencial na essenciação do seer. […]”

    ________________________________

    Heidegger, Contribuições à Filosofia (do Acontecimento Apropriador)

  3. Vinícius Scarpin disse:

    Este aforismo/trecho me deixa em uma grande aporia, pois me vejo forçado a pensar o Ser como Estar, pois no alemão, assim como no grego antigo (e outras línguas) havia essa ambiguidade. O que inclusive acho mais apropriado chamar Dasein de estar-aí do que de ser-aí (In-der-Welt-sein = estar-no-mundo, estar-com…). Mas eu realmente não me vejo em condições de afirmar nada com segurança a respeito de Heidegger ou do Ser/Estar mesmo.

    Esse Estar do Ser, ou apenas Estar, pode ser de certo modo reforçado pelo “Ereignis”, acontecimento apropriador/apropriativo. Heidegger “meio” que diz isso: “Ser é Ereignis”. O problema é que ele “define” Ereignis mais ou menos assim (onde e até onde eu sei): “O Ereignis ereignet” (não tenho certeza agora dos termos originais em alemão, mas a idéia é: “O acontecimento apropriativo acontece apropria”. É equivalente ao dizer “O Ser é” (Parmêndes), onde “nada” é dito/esclarecido. No texto “Tempo e Ser” ele dá essa definição de Ereignis. Em outros textos, inclusive este que citei ele recusa o “Ser é” de Parmênides. Em outro texto ele diz que, ou o Ser é e o ente não é, ou o ente é o Ser não é (mas essencia), alegando que isso não estava decidido.

    Acho que isso se tornou um desabafo de minha parte, pois realmente estou bem confuso. Desculpe-me por isso.

    O Ereignis enquanto acontecimento é algo que justamente se opõe ao Ser (sempre), porque o acontecer, visto metafisicamente, implica Devir. Ainda no Tempo e Ser e em outros textos ele diz, “Ser não é, antes, dá-se Ser”, ou, “Ser se dá” (“es gibt”). Ele fala do caráter “doador” do Ser que dá ser aos entes.

    Mas ele fala em algum lugar também que justamente o Ser só se “mostra” parcialmente ao homem (desculpe a imprecisão e carência de fontes) ao longo da história. Que história é história do Ser (que inclusive apenas o Ser é o “próprio da história” – mas aqui entra a compreensão dele de história, Geschichte e Historie). Acho que é nesse sentido o Ereignis. O acontecimento apropriativo são esses “relances” reluzentes do Ser/Estar. Mas não tenho nenhuma segurança para afirmar isso.

    Me desculpe novamente por me alongar. Não quero aborrecer.

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