A lenda do Preste João e o imaginário medieval sobre as Índias

Preste João

Preste João

Resumo

Como emblema do maravilhamento do Ocidente medieval com o Oriente, em especial as Índias, vamos abordar no presente artigo o mito do Preste João. Ademais, esse mito expõe outros leitmotivs míticos e maravilhas presentes no imaginário medieval (o rei-sacerdote, o imperador dos últimos dias, o Paraíso, a fonte da juventude, criaturas e seres fantásticos, etc.), articuladas com um contexto histórico cheio de conflitos político-religiosos (Cruzadas, disputa entre Império e Papado, crise social etc.). Inseparável do maravilhamento medieval com o mundo oriental, vamos expor a origem e sentido do mito do Preste João, sua difusão, transformação e declínio, à luz do contexto histórico-social.

Palavras-Chave: Imaginário Medieval, Índias, Preste João

Introdução

O Oriente é para o homem medieval o lugar do sonho e das maravilhas (LE GOFF, 2013, p. 369). E dentro dos contornos maravilhosos e evanescentes desse Oriente se sobressai o imaginário sobre a Índia, a fascinar o homem ocidental pelo menos desde a época de Alexandre, o Grande. Índias na verdade, no plural, porquanto o homem do Medievo concebia mais de uma Índia, cujos limites e localização todavia não são fáceis de delinear, em uma geografia de fundo mitológico e onírico, a passar, contudo, por um processo longo de “evemerização” ou desmistificação conforme os viajantes, navegadores e a cartografia europeias aumentavam sua precisão no conhecimento dos mundos oriental.

Para discorrer um pouco sobre a questão das Índias dentro do imaginário da Idade Média, escolhemos uma lenda que há muito tempo despertou o entusiasmo e a imaginação dos europeus: a do Preste João, justamente soberano das Índias, nas versões latinas de uma “Carta” a ele atribuída. A nosso ver, tal lenda é expressiva do imaginário europeu medieval sobre a Índia, além de articular-se como uma série de outros leitmotivs míticos, à luz do contexto histórico e político no qual se situa.

Começaremos com uma tentativa de conceituar o imaginário e o maravilhoso, em seguidas veremos o sentido e origem do mito do Preste João, dentro do seu contexto histórico, bem como a difusão e declínio desse mito, tendo especial atenção para a questão do Oriente e da Índia.

O Imaginário e o Maravilhoso Medievais

Conforme Le Goff (2011, pp. 12-13), o imaginário é o sistema de quimeras de uma sociedade, de uma civilização que transforma a realidade em visões ardentes do intelecto. Assim, a história do imaginário é a história da criação e da utilização de imagens que impulsionam uma sociedade a agir e pensar, pois resultam da mentalidade, da sensibilidade e da cultura que as impregnam e animam. O imaginário não é uma simples representação, pois é criador, poético, e é levado pela fantasia para além da passividade imagética. Ele constrói mitos e lendas. Não é a mesma coisa que a simbólica, pois vai além da simples analogia ou correspondência entre as coisas e seres, dotando-os de um caráter verdadeiramente fantástico e maravilhoso. Não é uma mera ideologia, porquanto a ideologia, na verdade, é que é imposta à representação de tal forma que pode perverter o sentido do “real” material e do próprio imaginário, instrumentalizando-o. Tampouco se confunde com a imaginação, pois, como foi dito, não se trata da apenas da coleção de imagens e criações imaginativas de uma determinada época, e sim corresponde àquelas imagens que levam uma sociedade a agir, resultando, por sua vez, da sensibilidade e mentalidade que as permeiam, em uma relação mútua e dinâmica.

Correlato ao imaginário, temos o maravilhoso. De acordo com Jacques Le Goff (1983, p. 19), o maravilhoso (em latim mirabilis, plural mirabilia) é uma constante na vida e na cultura do homem medieval.

Nas palavras de um autor do Medievo, Gilbert de Tilbury, “o maravilhoso é o que foge à nossa compreensão, embora seja natural”. Mesmo sendo surpreendente e incompreensível, ainda é considerado da ordem da natureza (LE GOFF, 2011, p. 20). O domínio do maravilhoso é o espanto de homens e mulheres medievais. Suscita o maravilhamento e está ligado a um aspecto visual, relacionando-se com a visão, pois faz arregalar os olhos dessas pessoas, ao mesmo tempo em que serve de estímulo para seu intelecto.

O maravilhoso medieval consiste em uma herança cultural pretérita (da Antiguidade, em especial a romana) com a qual é preciso lidar, aceitando-a, rejeitando-a ou modificando-a. A posição da Igreja é ambivalente a esse respeito.  Na Alta Idade Média a posição eclesiástica é de modificar, ocultar ou até mesmo aniquilar o maravilhoso, na medida em que ele se confunde, a seus olhos, com o paganismo. Mais tarde, a partir dos séculos XII e XIII – período de disseminação da lenda do Preste João –, há uma significativa mudança nesse sentido, ou seja, de aceitação do maravilhoso, na medida em que ele está – por assim dizer — sob controle, domesticado, além de ir de encontro aos interesses e aspirações de determinados grupos sociais, como a pequena e média nobrezas, associadas à cavalaria (LE GOFF, 1983, pp. 20-23).

Ainda segundo Le Goff (2013, p. 91, pp. 96-97), o cristianismo estimulou a imaginação de homens e mulheres, e criou um mundo de imagens e símbolos que marcaram a Europa durante muito tempo. Isso tem a ver com a relação tensa diante do paganismo, citada acima, ora destruindo seus objetos de cultos, ora cristianizando-os. Em alguns momentos, no entanto, houve uma verdadeira mescla ou simbiose de ambos os imaginários, o pagão e o cristão, como, para exemplificar, no caso do unicórnio, cavalo dotado de um único chifre longo. Ser fabuloso da Antiguidade, ele foi no Medievo relacionado ao Cristo, e tornou-se símbolo de uma mulher virgem, meio pagã, meio cristã, a fugir dos caçadores.

Isso também ocorreu no mito do Rei Arthur, sobretudo com a introdução do tema do Graal, a nosso ver. Já tinha aparecido em mitologias anteriores uma espécie de vaso, copo ou taça mágica ligada à abundância e juventude (o caldeirão de Dagda na mitologia celta-irlandesa, o copo de Jamshid na mitologia persa). O Graal nas lendas medievais, seja um cálice ou taça (C. de Troyes, R. de Boron), seja uma pedra caída do céu (W. Eschenbach), está sempre associado ao Cristo e à busca cristã pela redenção. Ademais, nas lendas de Arthur e do Graal, as personagens como Merlim e Morgana têm nitidamente um caráter pagão, associado à magia e ao demoníaco (MARKALE, 2008). Até Lancelote tem uma natureza meio pagã, pois foi criado pela fada Viviane no país das fadas e da magia, e, justamente, fracassa na demanda do Graal devido a sua vida pecaminosa, enquanto seu filho Galahad ou Galaaz, o novo Lancelote, é o perfeito cavaleiro cristão e está destinado a ter êxito na demanda do Graal (ZIMMER, 1988).

Contudo, o maravilhoso cristão amiúde parece próximo e inseparável de uma referência estritamente cristianizada, o miraculoso, o qual, no entanto, mesmo de ordem sobrenatural, possui um enquadramento preciso (o milagre tem autoria divina), e assim tende a ser esvaziado, além da própria Bíblia (referência central para a época) não dar muito espaço para o maravilhoso, e sim para o miraculoso (sobretudo os textos neotestamentários). Às vezes o maravilhoso cristão aparece próximo da magia, a qual, apesar da ideia de magia branca (Moisés enfrenta os magos dos faraós, os Reis Magos visitam Jesus etc.), tende porém a ser considerada algo diabólico e negativo pela Igreja.

Nada obstante existir um maravilhoso cristão e mesmo as fronteiras do maravilhoso sendo permeáveis e de difícil delimitação, é possível considerá-lo ainda, sob certo ângulo, uma resistência à ideologia cristã oficial, na medida em que apresenta um mundo “ao contrário” (o paraíso terrestre do livro de “Gênesis” está no passado) e tem uma função de compensação em relação ao caráter ordinário e regular do mundo cotidiano. A função compensatória do maravilhoso aparece, por exemplo, em mitos como o do país da Cocanha, uma criação mítica genuinamente medieval, considerada uma terra de abundância, deleite e prazeres (LE GOFF, 2011, pp. 119-126).

Ainda que seja uma compensação para o caráter “filisteu” do cotidiano, para suportar sua regularidade e prosaísmo, o maravilhoso medieval, mesmo quando não aparece ligado a isto e ninguém aparentemente questiona tal fato, tem conexão e está integrado ao cotidiano. Ademais, existe também no Medievo o maravilhoso político, respondendo aos interesses e aspirações políticas dos poderosos, por exemplo nas criações de linhagens familiares fantásticas, como a ligação entre a Melusina e os Lusignani na França (LE GOFF, 1983, p. 29), ou, então, os reis ingleses e sua apropriação do mito do Rei Arthur, um rei originariamente celta e inimigo dos anglo-saxões (TRACHSLER, 2008).

O maravilhoso medieval se manifesta ainda em terras e lugares fantásticos (desde o Oriente, em especial a Índia, até ilhas como Avalon, a “Terra das Maçãs”), seres e animais fantásticos (gigantes, monstros, grifos, fadas, sereias, melusinas, anões, unicórnios), objetos mágicos e encantados (taças, espadas, anéis, cinturões) etc.

No mito do Preste João vemos aparecer diversas características e aspectos desse maravilhoso medieval, quase como um “pout pourri”: o tema da abundância, riqueza e juventude; o tema do Oriente, da Índia; a presença de animais e seres fantásticos (grifos, ciclopes, homens sem cabeça e outros); as referências e alusões cristãs (o Paraíso, Melquisedec, Davi, os Reis Magos, Gog e Magog); e a mitologia política (o Imperador dos Últimos dias).

A lenda do Preste João: origem e sentido

O primeiro registro sobre a lenda do Preste João apareceu em uma crônica (“Chronica sive Historia de Duabus civitatibus”) redigida pelo alemão Oto Babenberger, historiador e bispo de Freising, o qual, por sua vez, resume um relato que teria recebido em 1145 de Hugo de Gabala, bispo da Síria franca. Segundo tal relato, havia pouco tempo um tal Preste João (“Preste” seria uma corruptela de “Padre”), rei e sacerdote conforme a tradição melquisedequiana, descendente dos Reis Magos, cristão nestoriano (portanto, heterodoxo) e residente além-Pérsia e além-Armênia, teria derrotado o sultão muçulmano persa Sanjar e conquistado Ecbátana, porém sem conseguir chegar depois à Terra Santa por causa de problemas climáticos (FRANCO JR., 1996, p. 90). Relato similar aparece um pouco depois em outras fontes, em parte baseadas na obra de Freising.

Em 1165 vem a lume uma carta supostamente escrita pelo próprio Preste João (a qual, na verdade, pode ter sido falsificada por Oto Freising, tio do imperador romano-germânico Frederico I Barba-Ruiva, ou então por alguém da chancelaria imperial) e endereçada diretamente ao imperador bizantino Manuel Commeno, enquanto na versão francesa era endereçada ao imperador Barba-Ruiva. A Carta se tornou bastante difundida (ao menos nos meios eruditos), com várias versões latinas e também em outros idiomas. Ela revela inequivocamente influências de textos mais antigos, como aqueles ligados à literatura apócrifa sobre Alexandre, o Grande.

A Carta foi tomada como um documento autêntico, tanto que em 1177 o papa chegou a escrever uma resposta a essa carta (FRANCO JR, 1996, p. 90) e mandou um embaixador (seu amigo, o médico Felipe) para contatar diretamente o Preste João (COSTA, 2001, p. 4). Ele acabou na Etiópia, sem sucesso nessa empresa. Fracasso não muito diferente do daqueles que tentaram ver na lenda do Preste Joao a alegoria, mesmo que remota, para algum rei ou reino historicamente existentes (GUMILEV, s/d).

Segundo a versão latina da “Carta” (1998, pp. 55 ss.), Preste João tinha 72 reis como vassalos. Defendia os cristãos, combatia os inimigos de Cristo e pretendia visitar o Santo Sepulcro com seu exército grande e formidável. Era senhor das “três Índias” e seus domínios se estendiam da Índia posterior até a Babilônia – voltaremos mais adiante a esse ponto. Nessas províncias existiam em abundância animais como elefantes, dromedários, ursos, leões, melros, grifos, até homens com olhos atrás e na frente da cabeça, homens sem cabeça, homens com doze pés e seis braços, ciclopes, fênix, formigas gigantes etc. Encontrava-se ali muito leite e mel, e inexistiam animais venenosos. Esses domínios estavam também próximos ao próprio Paraíso. Além do autor da Carta conhecer e aludir às diversas maravilhas medievais, os elementos utópicos e milenaristas presentes nos levam a perguntar: em qual contexto determinado disseminou-se essa lenda?

Contexto Histórico-Psicológico e Difusão da Lenda

Não devemos cair na tentação de reduzir as lendas e mitos à história ou à sociologia, contudo, é evidente as relações mútuas entre esses domínios. Mesmo o mito sendo em essência atemporal e remetendo ao tempo primordial das origens, como sustentou M. Eliade, ele não é transmitido e veiculado no vazio, mas corresponde a uma certa sociedade e a uma temporalidade, a um rol de valores e anseios determinados, como podemos ver, por exemplo, no trabalho de J. P. Vernant sobre mito e sociedade gregas (DÉTIENNE & VERNANT, 2008). Ainda mais no caso de uma lenda como a do Preste João, permeada de referências, motivos e alusões históricas inequívocas, conquanto mescladas com o maravilhoso.

O estudioso Lev Gumilev se pergunta como um lenda baseada em uma descrição geográfica tão inverossímil poderia ter tido tal aceitação entre as pessoas cultas da Europa, com exceção dos gregos e russos, que estavam mais próximos da Ásia, e assim a conheciam melhor. Além da questão da autoridade de fundo religioso pela qual foi aceita a lenda e da precariedade dos conhecimentos geográficos da época, esse estudioso considera que o alvoroço provocado pela divulgação do mito tem, apesar de tudo, algum fundamento em fatos históricos:

…the defeat of the forces of the Seljuk sultan Sanjar by the levies of the Central Asian tribes, united under the Khitan Gurkhan Ye-lu Dashi, on the plain of Katwan in 1141. Probably there were Nestorians among the nomads, yet if Ye-lu Dashi had a particular religious sympathy, it was only to Buddhism. His forces did not reach the Tigris, they did not attempt to; his kingdom was small, encompassing only the land of the Seven  Streams [Southeast of Lake Balkhash – trans.], part of Dzungaria and the southern slopes of the Altai; John’s name has not been established among those of the Khitan lords, nor has anything been found in Asia similar to the luxuriant inventions of the medieval Europeans.(GUMILEV, s/d)

Ademais, o contexto histórico-político no qual emerge a lenda do Preste João é acentuadamente marcado pelas Cruzadas, pela disputa entre o imperador alemão e o papa e, ainda, pela emergência social de uma mentalidade utópica e milenarista de fundo. E podemos dizer, sem exagero: esse mito era correlato aos anseios e angústias do zeitgeist.

Trata-se primeiramente de um momento em que o futuro da Cristandade estava ameaçado pelos muçulmanos. Em 1144 a cidade de Edessa, na Palestina, foi tomada por um general do sultão Mahmud, seguida de um massacre. Isso levou à pregação da Segunda Cruzada na Europa. Os muçulmanos pressionavam também os Estados Cruzados no Oriente Médio, e a figura do Preste João, mesmo herética, aparecia assim como o possível libertador messiânico de Jerusalém e um aliado importante para o mundo cristão naquele momento crucial (FRANCO JR., 1992, p. 73).

Sabidamente, o imperador romano-germânico Frederico I Barba-Ruiva teve um longo conflito com o papado. O embate entre Igreja e Império sobre a prerrogativa do poder temporal remontava ao tempo da famosa “querela das investiduras”, e consumava-se agora na intenção de Frederico em dominar a Itália, procurando também aparecer como dignatário de um império que se sobressaísse entre os demais reinos europeus.

Dentro desse quadro de disputa de poder, Frederico (FRANCO JR., 1996, pp. 93-97 ss.) havia transferido em 1164 de Milão para Colônia as relíquias dos reis Magos, os quais teriam sido batizados pelo apóstolo Tomás (que, ao contrário de Pedro, tocou Cristo diretamente), como uma forma de punir Milão (cidade refratária às pretensões de Frederico), simbolizar uma transferência do Império do Oriente para o Ocidente (pois as relíquias teriam sido cedidas a Milão por Miguel Comeno, imperador bizantino), além de aumentar o prestígio de Colônia e também vincular tal tradição ao imperador Frederico, o qual, dessa forma – ligado aos Magos e, portanto, a Tomás-, apareceria como uma autoridade apostólica, a qual lhe faltava diante de Roma, por um lado, e até mesmo acima dos apóstolos, pela ligação com os Magos, do outro. Diz Vinicius Dreger de Araujo:

(…)[o] Chanceler Rainald de Dassel, arcebispo de Colônia. Dassel arquitetou também outra operação para melhorar as chances de seu patrono: o traslado das relíquias dos Reis Magos de Milão para Colônia: com isso, Colônia tornar-se-ia uma sé mais “antiga” na tradição cristã do que Roma, afinal de contas, os Magos adoraram Jesus muito antes do que os Apóstolos; de fato, Colônia teria precedência sobre todas as sés ocidentais e seria a sede de uma nova Igreja, submissa aos imperadores germânicos, de modo semelhante ao que acontecia em Bizâncio.(ARAUJO, 2010, p. 127).

Os adeptos de Frederico também estavam empenhados na canonização de um ilustre antepassado seu, Carlos Magno, e mais do que isso, em fazer de Frederico I Hounhestaufen um espécie de “Carlos Magno redivivo”, com ressonâncias escatalógicas e milenaristas (FRANCO JR, 1996, pp. 95 ss).

A “Carta do Preste João”, endereçada também a Frederico, fazia com que ele aparecesse como uma figura central na cristandade, superior até ao papa, e, dessa forma, servia aos interesses da política imperial.

Reforçado pelas Cruzadas, circulava naquela época o mito escatalógico do “Imperador dos Últimos Tempos”. Esse mito consistia na espera de uma figura salvadora relacionada à tradição dos Oráculos Sibilinos (ARAUJO, 2010, p. 125), a qual converteria todos os pagãos e infiéis, e amiúde era relacionada com a figura de Carlos Magno (e, por extensão, a Frederico I também, pois ele pretendia ser ou era considerado um novo Carlos Magno).

A figura Prestes João, descendente de Davi e uma espécie de Melquisedec moderno, redivivo, aparece como afim à figura mítica do Imperador dos últimos Dias, e, ademais, estaria incumbido de vigiar as portas de ferro caucasianas que encerrariam os povos impuros, incluindo-se os bíblicos Gog e Magog, ali aprisionados por Alexandre Magno, segundo a lenda.

Conforme a Carta, o vasto reino de Preste João é um mundo utópico contrastando com o mundo real de pobreza, escassez, imoralidade e pecado daquela época. Aparece com um caráter milenarista: em seu reino existe fartura, riqueza, juventude e justiça, como compensação e contraste diante do mundo real. Um mundo próximo ao Paraíso.  Mas onde exatamente se situavam os domínios do Preste João, as “Índias”?

O fascínio e a visão sobre a Índias

 Para responder essa pergunta, é preciso percorrer antes de mais nada um caminho sobre a história do contato e das concepções ocidentais sobre o Oriente, em especial sobre as Índias. Segundo E. Said, é longo e rico o histórico da fascinação ocidental com o mundo oriental: a Esfinge, Cleópatra, o Edén, Tróia, Somoda e Gomorra, Isís, a rainha de Sabá, a Babilônia, os Reis Magos, o Preste João, Maomé e outros lugares e figuras (SAID, 2007, p. 102).

Dentro desse conjunto amplo, nos interessará especificamente a questão da Índia. No mundo antigo, Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) tinha chegado às margens do rio Indo, e seu vasto Império se estendia do Danúbio até esse rio. Ele buscava aí os vestígios de Baco, considerado um de seus ancestrais míticos pelo lado materno. Após muitas dificuldades e batalhas, ouviu dizer que mais além, no rio Ganges, estaria na borda do Oceano, contudo seus soldados não quiseram prosseguir, e foi obrigado a retornar.

Segundo Le Goff (2013, pp. 364-365), tão antiga quanto Alexandre é a fascinação ocidental com a Índia. A obra “Indica”, escrita pelo explorador grego Megástanes mais ou menos em 300 AC, o qual tinha sido embaixador de Seleuco I Nicator (um dos sucessores de Alexandre) na Índia junto a Chandragupta, está na origem de todas as fábulas antigas e medievais sobre as maravilhas da Índia. Retomado e citado por muitos autores posteriores (Estrabão, Arrian, Diodoro, Plínio), ele coletou e transfigurou literariamente diversas narrativas místicas, as quais fizeram da Índia o mundo maravilhoso dos sonhos do Ocidente.

Os escritores do Ocidente medieval não diferenciavam claramente literatura científica e literatura de ficção, e acolhiam em seus escritos as maravilhas da Índia. Pode-se mencionar a “Ethymologiae” de Isidoro de Sevilha (séculos VI-VII EC); a enciclopédia “De universo” de Rabano Mauro, a qual contém monstros da Índia; e há capítulos sobre a Índia no “Imago Mundi” atribuído a Honorius Augustodunensis. O mito indiano também está presente nos enciclopedistas do século XIII, amiúde retomando fontes mais antigas: Gauthier de Metz, Gervársio de Tilbury, Barthélemy o Inglês, Thomas de Cantimpré, Brunetto Latini, Vincent de Beauvais. E continua a ser ampliado na Baixa Idade Média, com autores como Mandeville e Pierre d’Ailly, além do anônimo “Gesta Romanorum” (final do século XIII), permeado de fábulas e contos indianos.

Não podemos esquecer de textos como “Mirabilia” e “Epistola Premonis Regis ad Traianum Imperatore” (séculos VII a X EC), os quais evidenciam o tema da “mirabilia Indiae”. Ademais, textos como a “Lettre d’Alexandre à Aristote” (a circular desde 800 EC) e a correspondência entre Alexandre e Dindymus enriqueceram a literatura apócrifa sobre as maravilhas da Índia.

Do ponto de vista geográfico, o que era, afinal, a Índia para os ocidentais do Medievo?

Para a geografia medieval a Ásia começava no Nilo, e não no Mar Vermelho, incluindo-se nela parte da moderna Etiópia. O sentido da palavra “Índia” também era alargado, pois englobava o nordeste da atual África. Havia várias “Índias”, por conseguinte. E “Etiópia”, por sua vez, era um espaço de localização vaga e se confundia com a Índia: seria uma das Índias, porventura.

Na “Carta do Prestes João” (versão latina), o Prestes João é apresentado como o soberano das três Índias. A Carta em si é imensamente vaga, todavia as três Índias seriam a Ultra-gangética; aquela entre o Indo e o Ganges; e Índia que ia da parte ocidental até a Etiópia (p. 55 versão latina; nota 12).

O autor medieval Mandeville, um dos primeiros a defender a esfericidade da Terra, diz em seu “Livro” (1356), uma espécie de sumula da geografia da época, sobre o Oriente e as Índias:

Para lá de Jerusalém (centro e topo do globo) e dos reinos muçulmanos, para oriente, encontramos na Ásia um espaço culturalizado dividido em três poderosos reinos: o Cataio do Grande Khan, a Pérsia, e a Índia (a Índia Alta, Média e Baixa) a qual pode ser atingida pela Pérsia ou pela Etiópia (…) Nas fronteiras destes reinos é descrita uma multidão de espaços continentais (…) e de ilhas, que são inabitadas devido a violência  dos calores tórridos, ou habitadas por monstros, gigantes, anões, amazonas, hermafroditas, homens com cornos, etc  (apud ROGGENBACH, 2016, p. 26)

Segundo o estudioso Kimble (KIMBLE, 2013: 157), no Medievo as três Índias eram: India Minor, India Major e India Tertia – para os árabes, Sind, Hinj e Zinj. As duas primeiras ficavam na Ásia e última na África (mais precisamente, a Etiópia).

Já segundo Jacques Le Goff (2013, p. 371), com um pouco mais de precisão, para os ocidentais medievais a Índia Menor se situaria a partir do norte da costa de Coromandel (no sudeste da Índia atual) até englobar as penínsulas do Sudeste Asiático; a Índia Maior corresponderia a boa parte da nossa Índia hoje; e a Índia Meridiana, a qual, curiosamente, compreenderia a Etiópia e as regiões costeiras do Sudoeste Asiático.

Conforme Le Goff ainda, da Idade Média até o século XVI, a Índia também será amiúde referida como uma grande ilha. Não se sabe que a Índia propriamente dita e seu território existem, perduram unicamente o nome e relatos míticos. Ademais, prevalece a ideia de que o Paraíso Terrestre fica na Índia, por ser este o lugar conhecido mais distante. Acreditava-se que nas Índias vivam os povos de Gog e Magog, encerrados em muralhas (às vezes confundidas em algumas versões com a muralha da China) até o fim do mundo, quando serão libertos e liderados pelo Anticristo; para os cristãos, eles também impediam os homens de chegar até o Paraíso, formando uma barreira de contenção.

Os missionários que iam para a China contornavam a Índia pelo norte, enquanto os mercadores que seguiam pelo sul até o extremo Oriente não adentravam a fundo na Índia. Mesmo Marco Polo (do qual falaremos mais adiante) escreveu em seus relatos mais sobre o Ceilão, caracterizando-o como a maior das inúmeras ilhas que formavam a Índia (ROGGENBACH, 2016, p. 29).

Além de ser vista na Idade Média como o própria Paraíso, a Índia também é considerada uma terra de monstros, apresentados em textos, miniaturas e pinturas cuja datação remonta no mínimo aos séculos IX-X. Ali também se encontra a fonte da juventude, a Fênix, o unicórnio, as árvores falantes sol e lua etc. É tomada por um país profundamente urbanizado, com milhares de cidades e nações, além de possuir em abundância metais preciosos, frutas exóticas, monumentos. Para os cristãos, o povo indiano era constituído, de um lado, por bons selvagens cheios de piedade e virtude (os brâmides), enquanto, do outro, era formado por uma massa de selvagens e primitivos que comiam excrementos e eram canibais, andavam nus e praticavam relações incestuosas (ROGGENBACH, 2016, p. 30).

A noção de Índia é ampliada a tal ponto que chega a se confundir com a própria América, mesmo após o fim da Idade Média. Segundo Ronaldo Menegaz,

Se a porção limitada pelo Indo era um tanto mais bem conhecida, sabia-se do Ganges como o outro limite a oriente, mas se não se descesse por ele ao Índico e se seguisse em linha reta do Indo para o Oriente, onde se chegaria? Provavelmente nessa mesma Índia que Colombo pensava atingir velejando para o Ocidente, o que faz da América Índia também. Essa ampliação do significado de Índia que incorpora a América deixou numerosos vestígios; ora são nomes de obras como a Historia de las Indias, de Bartolomé de las Casas (1474-1566), ora são nomes geográficos como Índias Ocidentais, como se chamava a federação das Antilhas britânicas e, sobretudo, a designação de índios dada aos aborígines da América.” (MENEGAZ, R., 1998)

Essa visão maravilhosa e imprecisa sobre a Índia só vai ser muito lentamente modificada – mas nunca de todo abandonada— através do contato dos portugueses com o mundo indiano a partir do século XVI.

Portanto, foi por ter como pressuposto esse estofo imaginário sobre a Índia que a lenda do Preste João apareceu e se desenvolveu, e dessa forma colaborou, por sua vez, para incrementá-lo e enriquecê-lo. Feita uma caracterização geral das origens e sentidos bem como do contexto histórico da lenda do preste João, assim como da questão correlata da atração e visão ocidental sobre as Índias, vamos adiante falar um pouco sobre continuidade e declínio dessa lenda.

Wolfram Eschenbach: Preste João, Índia e o mito do Graal

Uma outra obra medevial famosa a fazer referência ao Preste João e à Índia é o romance “Parsifal” (Parzival) do trovador alemão Wolfram Eschenbach. Essa obra foi escrita por volta de 1210 como uma continuação para o inconcluso “Perceval ou o Romance do Graal” do autor francês Chrétien de Troyes. Nessa obra de Eschenbach, cuja fonte teria sido Kyot, um provençal, o cavaleiro Parsifal, destinado ao Graal (que aparece como uma pedra caída do céu), tem um meio-irmão enigmático, uma espécie de duplo com pele malhada, chamado Feirifiz, o qual era filho de Belacane, uma rainha negra da África ou Índia repudiada por Gahmuret, o pai de Parsifal. Feirifiz, quando encontra seu meio-irmão Parsifal, era o chefe de um exército de sarracenos, sendo ele mesmo, provavelmente, um muçulmano (de qualquer forma, é chamado de “pagão”), o que provavelmente alude a uma visão religiosa tolerante da parte de Wolfram.

Os dois irmãos duelam em igualdade pois têm praticamente as mesmas habilidades e qualidades e, por fim, acabam por fazer as pazes depois de uma luta empatada. Feirifiz, contudo, só tem acesso ao Santo Graal após se converter ao cristianismo. Ele se casará depois com Repanse de Schoye e ambos partirão para a Índia. Aí ela terá um filho de Feirefiz: Preste João, o primeiro de uma linhagem de reis homônimos. Nessa versão da lenda temos o cruzamento do Preste João e do maravilhoso indiano com o universo do Rei Arthur e da lenda do Graal.

O tema do Graal e do Oriente ainda serão retomados pela literatura mística ocidental ulterior. Em 1771, a “Palavra Perdida” (ora, o Graal) ainda seria “encontrada” visionariamente na Tartária (Mongólia) pelo célebre místico sueco E. Swedenborg, conforme lhe teriam “revelado” os anjos e as entidades espirituais, conservada aí desde tempos remotíssimos, enquanto a visionária e estigmatizada católica A. C. Emmerich (começo do século XIX) teria “visto” o Graal em algum lugar misterioso situado no Tibete.

O filósofo e orientalista francês Henry Corbin (1903-1978), o qual estudou a fundo a filosofia e o misticismo islâmicos, sempre traçando paralelos com a tradição ocidental, diz que

Somos consumidos com a nossa entrada neste mundo. Deve levar uma vida inteira para reconstruir o Templo. Ou melhor, não há como escapar do mundo exílio se não for através da passagem pelo novo nascimento representado pela reconstrução do Templo. A transferência do templo para a Índia é retorno da alma ao seu país de origem. Este “regresso ao Oriente” finalmente sugere o segredo da cavalaria do Graal: a “Índia” não é aquela que podemos encontrar nos mapas…. O termo indica tradicionalmente um Extremo Oriente, onde começa a região do paraíso invisível. Seria inútil, mesmo ridículo, identificar o Preste João do ciclo do Graal com algum príncipe deste mundo, da Mongólia ou da Etiópia, por exemplo, como foi feito no passado… (CORBIN, 1983; tradução nossa do excerto).

O Oriente e a Índia continuam sendo o lugar simbólico em que os ocidentais irão encontrar o maravilhoso, o fantástico e o místico, muito depois da Idade Média.

Marco Polo: Preste João na Ásia

No final do século XIII o viajante veneziano Marco Polo (1254-1324) em seu “Melione” (“As Viagens”), fez relatos maravilhosos e reproduziu histórias fantásticas ouvidas em suas viagens pelo Oriente, pela Pérsia, Tartária (Mongólia), China etc. Ali aparece uma lenda sobre os três Reis Magos (1997, pp. 21-22), que partiram de Sabba (próxima a Teerã e confundida aqui com a Sabá bíblica), na Pérsia, e depois teriam sido enterrados nessa cidade. Os Reis Magos teriam encontrado o menino Jesus, o presenteado e também recebido um presente dele, uma pedra que, quando jogada em um poço, gerou um fogo caído do céu que nunca se apagava, e que foi levado pelos reis magos para Pérsia (confundido aqui com o culto ao fogo de origem zoroastriana ou mazdeísta).

Também aparece no livro de Marco Polo o mito do Preste João, conquanto com algumas ligeiras modificações e inovações em relação ao material anterior.

Segundo Marco Polo, em terras situadas na China, os tártaros (mongóis) que as habitavam prestavam vassalagem ao seu senhor, o Preste João, mas resolveram migrar quando ele quis dividi-los e reorganizá-los, e não mais lhe pagaram tributos. Nesse ínterim, por volta de 1187 Gêngis Khan (1997, p. 46) se tornou rei dos mongóis e iniciou um projeto de expansão. Em 1200 ele teria mandado embaixadores para o Preste João, querendo casar-se com sua filha, o que deixou o Preste João profundamente irado, já que considerava Gêngis Khan inferior, apenas um vassalo, e portanto indigno disso, prometendo matá-lo. Gêngis Khan também ficou indignado, e, enfim, ambos foram guerrear com seus respectivos exércitos em uma região situada ao norte da Grande Muralha da China. Após uma grandiosa e inaudita batalha, Gêngis Kahn venceu o Preste João, o qual morreu na batalha e perdeu seus domínios.

Ainda que não mencione diretamente o mito do Preste João, é lícito citarmos aqui também os relatos do viajante marroquino e muçulmano Ibn Battuta (1304-1377), um pouco posterior a Marco Polo. Ibn Battuta, partindo da África, teria passado por lugares como Alexandria, Cairo, Palestina, Síria, Damasco, Meca, Iraque, Curdistão, Bagdá, Omã, Rússia, Constantinopla, Afeganistão, Índia, Ceilão, Bengala, Sumatra, Tunis, Fez, Argélia, Mali, Granada, China… só para citar algumas! Duvida-se, contudo, de que ele realmente tenha estado na China, e uma parte dos seus relatos (como os de Marco Polo) são inverossímeis e imprecisos. De qualquer forma, seus relatos forneceram imenso material geográfico, histórico, etnológico e folclórico sobre esses lugares e seus povos. É precisamente o aumento continuo do contato direto dos ocidentais com o Oriente, bem como os avanços cartográficos que irão “matar” mitos como o do Preste João.

Deslocamento para África e “morte” do Mito

Conforme aponta o historiador Ricardo da Costa, de um lado existia uma rivalidade entre etíopes e árabes que, em tese, aproximava aqueles dos cristãos. E a Etiópia já tinha uma afinidade com o maravilhoso desde a lenda da rainha de Sabá, a qual encontrara Salomão. De Balkis, uma criada dessa rainha, teria se originado a dinastia etípoe Zagwés, a partir do século XII. A essa dinastia pertenceu também o rei Lalibela, santo católico que fundou muitas igrejas e mosteiros.

Em meados do século XV, um embaixador do soberano etíope (conhecido como negus), prestando serviço em Aragão – e doravante, aumentaria a aproximação entre a cristandade europeia e a Etiópia–, afirmou para um dominicano de origem siciliana que seu soberano era o verdadeiro Preste João, descendente direto da rainha de Sabá, e que seu reino havia sido evangelizado pelo apóstolo Tomás.

Consuma-se aqui a transferência/especificação geográfica do mito do Preste João para a Etiópia, na África, ao mesmo tempo em que esse nome começa miticamente a se tornar um título, intemporal. Segundo Hilário Franco Jr., na medida em que Carlos Magno era comparado ao Davi bíblico no Medievo, pensava-se que um sucessor da linhagem de Davi seria o responsável por vigiar os povos impuros do Anticristo encerrados miticamente no Cáucaso ou em outra região. Dessa forma, o deslocamento do mito do Preste João para África tem certa relação com isso, pois, além da dinastia Bagrátida da Geórgia, a dinastia Zagwe da Etiópia reinvidicava uma ascendência salomônica (FRANCO JR, 1996, p. 100).

Ulteriormente, por conta da ameaça das potências islâmicas, etíopes e portugueses se aproximaram, e uma embaixada portuguesa foi enviada em 1520 para Etiópia, na qual encontrava-se o padre e capelão Francisco Alves. Deve-se a ele a primeira descrição do “Preste João” (ou seja, do soberano etíope). Ele foi o primeiro cristão a “presenciar” o “Preste João” e, assim, matar o mito, desencantando-o. O Preste João, sobre uma plataforma, tinha um grande coroa de outro e prata, a apoiar um cruz de prata em um das mãos. Utilizada um vestido de seda bordada com ouro e prata e uma camisa de seda de mangas largas. Do seu lado direito um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas. Era o fim de um mito, mas não da fascinação do Ocidente com o Oriente, em especial a Índia.

Conclusão

Conforme foi explanado acima, o mito do Preste João foi emblemático do imaginário de toda uma época, em sua reapresentação do Oriente e da Índia de forma maravilhosa – algo que, a rigor, remontava à Antiguidade –, além de expor outros temas míticos da época medieval (o rei-sacerdote, o imperador dos últimos dias, o Paraíso, a terra fonte da juventude, criaturas e seres fantásticos, o anseio por um mundo de riqueza e abundância etc.), dentro de um contexto histórico permeado por conflitos e dramas político-religiosos (Cruzadas, disputa entre Império e Papado, crise social etc.). Contudo, não pode sobreviver incólume ao crescimento do contato direto dos europeus com o Oriente, bem como aos avanços em termos de cartografia, sem falar nas mudanças no horizonte político e social, as quais enterraram quase todos os resquícios do mundo medieval (a progressiva crise da monarquia e a separação entre Igreja e Estado).

Contudo, não podemos dizer que encantamento com o Oriente (em especial a Índia), do qual o mito do Preste João é um episódio importante, desapareceu por completo do imaginário do homem ocidental na modernidade.  Como vimos acima, o imaginário de uma época muitas vezes precisa lidar e transfigurar com a herança cultural pretérita, e a nossa não é diferente nesse sentido.

Não por acaso, são justamente os românticos do século 19 como o alemão F. Schlegel que vão começar na Europa os estudos linguísticos e religiosos sobre o Oriente, em especial a Índia. Outro alemão, Goethe, classicista e grande referência para os românticos, irá, por sua vez, no seu “Divã Ocidental-Oriental” se maravilhar com o islamismo e com a poesia da Pérsia (Rumî e Hafiz). Quanto aos franceses, V. Hugo, Chateaubriand e Lamartine também ficarão deslumbrados e escreverão sobre o Oriente.  G. de Nerval, um romântico, dará um caráter antigo e mitológico ao mundo oriental em sua “Viagem ao Oriente”, inspirado em suas viagens pelo Egito, Síria, Turquia e Malta e outros lugares.  G, Flaubert não ficará atrás, e o tema do Oriente (tema que ele conhecia profundamente, tanto por viagens quanto por estudos sistemáticos) será uma constante em suas obras.  Mesmo Baudelaire ainda sonhará com a Cocanha (“China ocidental”) e identificará o Oriente com uma nostalgia e um anelo pelo infinito (BAUDELAIRE, 2006).

Os ingleses, por sua vez, também escreverão sobre o Oriente, em especial a Índia, sua principal colônia oriental. Como é evidente, esse interesse estético-literário orientalizante não pode ser separado histórica e culturalmente da constituição do Orientalismo enquanto uma disciplina acadêmica e um discurso eurocêntrico sobre o Oriente ao longo do século 19, no lastro do avanço imperialista e neocolonialista das potências europeias (Inglaterra, França, Alemanha, Rússia etc.) sobre os países orientais, desde Napoleão e mais intensamente no final do século 19 (SAID, 2007, p. 164 ss).

E mesmo com todas as lutas antiimperialistas e nacionalistas na Índia, Egito, Marrocos, China e outros países ao longo do século 20, as ingerências ocidentais persistem ainda hoje sobre o Oriente (questão Palestina, guerras do Iraque, Afeganistão, a questão da Síria e dos imigrantes muçulmanos na Europa) fomentando ódio e ressentimento, alimentos para atitudes extremistas e desesperadas.

Mas não só persiste a arrogância e truculência imperialistas ocidentais no Oriente (invasões do Afeganistão e Iraque, mais recentemente), como também perdura no Ocidente uma forte atração pelo mundo oriental, ainda visto como um lugar de exotismo, espiritualidade e paz, em contraste com o modo de vida materialista e consumista ocidental. Isso ocorre por exemplo na contracultura dos anos 60-70 (música indiana, hare krishnas, zen budismo, Soka Gakkai, sufismo), e também na cultura pós-moderna e new age atual, interessada em yoga, meditação, feng shui, advaita, acupuntura, artes marciais etc., mas, na realidade e paradoxalmente, não tão desvinculada do consumismo, já que movimentam um imenso mercado de produtos e serviços “orientais” (FILORAMO, 2005, p. 198 ss).

Mesmo em uma época de encurtamento de distâncias através da tecnologia e da economia como a nossa, o Oriente ainda aparece como uma espécie de compensação e fuga salvadora para a indigência existencial de nós, ocidentais. E isso está ligado, possivelmente, ao que o sociólogo M. Maffesoli chamou de “reencantamento do mundo”: um retorno poderoso e inesperado da religião e do mito na cultura popular, ao contrário das previsões cientificistas e positivistas.

Bibliografia

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Categoria: Espiritualidade, Mitologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou Bacharel em Filosofia e especialista em História. Atuo como professor no ensino fundamental e médio. Sou membro do CEEO-UNASUR, centro dedicado ao estudo histórico-sociológico das tradições místicas e esotéricas. Minhas áreas de interesse: esoterologia, romantismo, gnosticismo, neoplatonismo e filosofia islâmica.

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