Ahavá, onah e sexualidade no judaísmo

A grande diferença dentro da concepção de amor entre judeus e cristãos tem a ver com o corpo. Se por um lado a sabedoria cristã lega os díspares vocábulos gregos para o amor (como Filéo, o amor-amizade, Storge, o amor-familiar, Eros, o amor-sensual, e Ágape, o amor-incondicional), os hebreus significam o amor, em aspectos espirituais tanto quanto físicos, através de um e único termo: “ahavá”. O sexo afinal, conforme narram os mestres judeus, não se reduz a um ato físico para procriar, mas antes de tudo é um encontro que envolve todo o ser: trata-se da espiritualidade do amor físico e da materialidade do amor espiritual. A propósito, na Torá, a palavra usada para o sexo conjugal vem da raiz “yod-dalet-ayin”, que particularmente significa “conhecimento”. Por isso também o sexo envolve um ato de sabedoria que exige responsabilidade, compromisso e pureza (em destaque especial para que os judeus da Tradição são puritanos, mas não pudicos). O que isso quer dizer? Sobretudo que a relação judaica com o sexo envolve uma aceitação realística.

No judaísmo não há um dualismo entre o céu e a terra ou entre o corpo e a alma, e isso não poderia ser diferente entre o homem e a mulher: eis que o sexo, em sentido estrito, não é uma relação entre dois corpos: ambos, marido e mulher, “tornar-se-ão uma só carne” (TB, Sanhedrin, 90. Gênesis 2 : 25). Nesta união, além do mais, o cônjuge tende a receber o dom de Deus de trazer uma alma para o mundo, de produzir um ser humano, sendo a forma como o casal se une, de acordo com o Talmud (TB, Nedarim, 20a), essencial para a formação do caráter da criança: quanto mais verdadeira for esta união, mais elevados serão os filhos, no sentido físico e espiritual – e para garantir tal fidedignidade entre o casal os judeus seguem a onah, lei que tem como fim corrigir o desbalanceamento natural entre o homem e a mulher no temperamento sexual.

Quanto à especificidade da onah, são duas as sua raízes etimológicas no Talmud. A primeira vem do termo “estação” ou “período”, cuja remissão é à frequência da relação sexual de um casal pela lei que, caso não seja cumprida, pode levar um sacerdote a obrigar o homem a se divorciar de sua esposa, mesmo que o casal já tenha cumprido a halakhic. A segunda etimologia da onah deriva da palavra “innui”, que significa “causar dor ou sofrimento” – aqui no sentido positivo, ou seja, para que a mulher não tenha seus direitos sexuais negados (o requerimento da onah a protege da dor da depravação e da inadimplência sexual). Eis então o que se destaca: no Judaísmo o sexo é um dos três direitos básicos das mulheres (os outros dois são comida e abrigo), não dos homens (não porque os desejos sexuais masculinos são ignorados, mas porque os mestes do judaísmo os foram assumidos como uma motivação que não precisa ser ancorada na lei). Assim sendo, as leis da onah são dirigidas principalmente para com o homem e o exige dar prazer à mulher durante o ato sexual, e não apenas pensar em si mesmo por uma segunda razão: anatomica e espiritualmente é o homem quem está entrando na mulher, e a mulher recebendo-o dentro de si, por conseguinte, ele tem obrigação de ser como um bom hospede ao visitar um anfitrião (por essa analogia a onah é também chamada de “Lei da Visitação Sexual”). Esta regra está também explicita no Êxodo (21:9), que estabelece ao homem a obrigação de dar prazer a sua esposa e o proíbe de causar-lhe frustração, pois a frustração a causaria sofrimento (Shulchan Aruch, Even Haezer, 76:11) e objetivo principal do homem não é outro senão tornar a esposa feliz (TB, Shabat, 63a), pois “Se um homem é feliz, é por causa de sua esposa. Todas as bênçãos que caem sobre seu lar derivam dela”.

Em gratidão a sua felicidade, o marido não pode realizar a mitzvah da onah como simplesmente cumprindo um dever: o homem deve sempre tomar a sua esposa com prazer, e a esposa deve sempre querer o seu homem quando este lhe dá prazer dentro da lei. Adiante, para garantir que isto ocorra, Shulchan Aruch (Even Haezer, 76:11) instrui que o esposo prepare sua mulher para o ato sexual inspirando-a, envolvendo-a com palavras, beijos e carinho. São estas as chamadas preliminares, instruídas pelo Rabi Yohanan (TB, Eruvim, 100b) a partir do exemplo do “cortejo do galo”, animal que nunca parte diretamente para o ato sexual, mas primeiro seduz a galinha com movimentos nas asas. Ora, e se por um lado o homem deve encorajar a mulher, a mulher deve dar expressão clara às suas necessidades e desejos e recebê-las com alegria. O Zohar inclusive critica severamente a esposa que tem relações sexuais em uma atmosfera de tristeza e conflitos com seu marido, pois nesse caso a união dos corpos e das almas se dá em padecimento.

Quanto à frequência sexual, para não ser diminuta nem excessiva, a onah se ajusta de acordo com a profissão do homem e com sua disponibilidade para a prática da obrigação marital: para homens tayalim (de meios independentes), o sexo deve ocorrer todos os dias; para trabalhadores comuns, duas vezes na semana; para cameleiros, uma vez ao mês; para marinheiros, uma vez em seis meses (Ketubot 61b). Estudantes oficiais da Torah representam o grupo de exceção e só são obrigados a cumprir o dever marital uma vez na semana, de preferência na sexta-feira a noite. Além disso eles podem se afastar de suas esposas em até um mês para o estudo. Quanto ao tayalim, caso deseje se afastar da mulher para estudar, ele o pode fazer apenas uma vez na semana, já que o conhecimento da lei não lhe é um comprometimento profissional, mas só um pequeno termo envolvendo sua performance no mitzvah. Outra exceção, dessa vez que parte da mulher, é para a mãe que amamenta e para a esposa grávida, que por causa do seu envolvimento com o bebê e/ou recuperação post-partum, pode ser assumida temporariamente como “assexuada”, no entanto, caso indique interesse sexual pelo marido, este deve ser sensível e responsivo.

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Categoria: Judaísmo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Criada numa família judaica, fui abençoada por ter um tio judeu messiânico. Através dele cresci ouvindo as histórias de Yeshua. Hoje além de seguir o Cristianismo, me dedico a estudar o Tradicionalismo e as Letras Clássicas.

Comentários (2)

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  1. Antonio disse:

    Para o judaísmo o corpo é tão sagrado como sua espiritualidade. O corpo é a morada da alma, e deve ser cuidado. Os gregos, ao contrário, já tinham o pensamento do corpo como profano, apenas a espiritualidade era a parte sagrada.
    Há um conjunto de regras bastante extensa no judaísmo referente ao cuidado com o corpo.

  2. Phillip disse:

    Outra exceção em relação à mulher são os períodos de Nidá (menstruação).

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