Biciclética

1. Bicicleta como filosofia?

Assim me ocorria quando hoje pedalava para casa, reparando como na bicicleta o espaço que me separa entre o lugar para onde me desloco e o refúgio onde por fim volto são por mim conquistados à força do esforço que eu enquanto corpo faço. Verborreia. Mais simples o que digo refaço: será ou não a bicicleta objeto válido de reflexão filosófica? Atente-se aos detalhes: o seu simples funcionar, ao converter a energia que do corpo emana em força motriz de grande eficácia, o próprio corpo melhor se carrega carregando também consigo a bicicleta-máquina que essa força multiplica — que grande maravilha! Justo parece que se coloque a questão: digna ou de nota? Vale a reflexão? Eis o que aqui te proponho por meio dos seguintes raciocínios.

2. A bicicleta

Sobre ela, pouco a dizer. Na prática: funciona. Duas (bi) rodas (ciclo), uma mecânica simples (corrente, pedais, coroa, catraca), e uma estrutura sólida (quadro); uma sela, um guidão. Eis a ferramenta. O restante é com o ciclista.

3. O (bi)ciclista

É o motor da coisa; o maquinista; — e o principal passageiro. Nela sentado, toma todas as decisões: Pedala, comanda — e é levado. Da sua tripla perspectiva, o ciclista tem uma relação diferente com as distâncias que o separam entre mundos que habita entre ponto de partida e (bici)porto de chegada. Não mais para si são esforços abstrações. Daqui ali custa ipse facto ao corpo este tanto. É físico. Cru. Mais peso, mais esforço — e mais cansaço. Daqui ali medido pelo metro do esforço do esforço que faz o ciclista. Bicicleta como ética — exigindo a reflexão filosófica.

4. Biciclética

Quanto vale qualquer coisa? O que mede um quanto de qualquer coisa se esse quanto não tem qualquer custo em vista do esforço físico que tão pouco nos custa enquanto corpo? Dito doutra forma: sem esforço feito no transporte de algo, como valorizar esse algo numa métrica do cotidiano-corpo em que nos movemos? Se sem esforço (físico) me desloco entre pontos, de que forma posso eu saber quanto vale essa distância? Quanto esforço me separa entre os pontos espaciais em que cotidianamente me desloco? Ilustro concretizando com um exemplo: de automóvel, ou até noutra qualquer máquina de transporte que faça uso de energias que não as nossas, como calcular em esforço essa deslocação espacial pelo tanto de espaço que ocupo em vida? Sem isso, são apenas km² de esforço que nem sequer sei que existe, que não existe porque não sinto; e como o não sinto nem sequer o vivo — porque não me custa. Sem bicicletas, abstração pura. Sem esforço, sem ligação, sem preço. Quanto vale então todo esse esforço que não conheço nem experimento?

Pela bicicleta essa relação com o espaço do mundo se refaz e se refaz pela única forma possível enquanto medida de esforço: pelo esforço que o próprio corpo faz. Sobre duas pernas apenas, o espaço coberto é menor — e maior também o esforço feito. Na bicicleta, a ferramenta se funde com o corpo e o próprio corpo se transforma em ferramenta. Biciclista e bicicleta se confundem e traduzem espaço em esforço num mundo que ocupado pelo esforço inevitavelmente se torna muito mais ético.

Porque essa ética tem um fundamento cru que se reifica no cru do andar de bicicleta, justo é que se fale de uma biciclética, a ética que faz corpo no corpo que é uma bicicleta.

5. Redundando em coerência

Bicicleta como filosofia? Ao longo deste curto texto este foi o nosso mote e o mote pelo qual orientamos o texto. Em 3 pontos principais o dividimos, cada um colhendo as partes com que tentamos comprovar a questão em tese. Da soma (2) da ferramenta com (3) operário que a usa, resulta (4) uma ética que melhor permite compreender o mundo pelo tanto de esforço que custa ocupar esse mundo. Como só pedalando essa ética se mostra, que aponte o texto para a filosofia que anda em cima da bicicleta. Conclua-se pedalando, pedalando portanto.

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Sobre o(a) Autor(a) ()

Se publico tiro um retrato. Eis o meu registro público com que me publico, assim me tornando público. Dou assim parte parte de mim, a minha parte pública, a parte com que o público pode conversar, concordar ou discordar, refutar ou simplesmente ignorar. O público, na maior parte, nunca verá de mim mais que esta parte. Publicado o confirmo. É público este retrato — que tão mal me retrata.

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