Cristianismo não é conforto psicológico

Nutre grande ignorância o homem que confunde Cristianismo com conforto psicológico. O amor cristão não se confunde com sentimentalismo ordinário, tampouco se reduz às causas e falsos humanismos do mundo. O amor de Deus é o Grande Amor Pedagogo que em sua plenitude é vivenciado por quem desenvolve disciplina e renúncia.

O Cristianismo não dá o mundo a ninguém, mas o mata para em seio místico dar-lhe vida. É por isso que no trajeto da religião cristã o homem: i. nega a si mesmo; ii. pega a sua cruz; iii. segue a Cristo. É evidente que a glória cristã nunca foi deste mundo. Longe disso, os sumos exemplos da Terra são de mártires, perseguidos, renunciadores, sendo a primeira grande renúncia a negação de si: o adeus aos maus costumes, às más paixões, desejos impuros e maus pensamentos. Negar a si não significa outra coisa senão estar morto para o mundo e vivo para Deus. E longe de nos trazer conforto terreno, isso nos mostra dificuldades verazes: dores tal como sentiu Jesus, perfeitamente homem e perfeitamente Deus, ao carregar a sua cruz. Já nós quando carregamos a nossa, sentimos a dolorosa travessia da renúncia à glória sem lamentações, por mais dolente que isso pareça. Carregar a cruz significa esforçar-se para a perfeição espiritual, sendo a essência disso a assimilação e o discipulato a Cristo: negamos as nossas opiniões (pois só o ignorante tem opinião) e nos prostramos perante a Verdade.

O caminho é árduo a tal ponto que mesmo depois de todas as cruzes externas nos damos conta de que existem cruzes ainda mais profundas: são as chamadas cruzes internas. Carregando-as podemos perceber o percurso de toda a nossa vida. Durante nossa história fizemos e dissemos coisas que nos afastaram da perfeição, e todos estes feitos jamais poderão ser apagados da memória. Isso será o princípio da cruz interior: nós mesmos. Mas não nos desesperamos, não demos ouvidos às acusações: o Evangelhos nos diz que quando purificados nossos pecados ficarão mais alvos que a neve. Dentro da Lei aquele que verdadeiramente se redimir não será afetado pelas distrações do mundo, incluindo as lembranças do que se passou, os pecados da mocidade, as transgressões da vida comum.

A trajetória do cristão portanto é como a de um doente no hospital: por trás do anúncio de uma doença há causas ríspidas, estando a doença interna do cristão “por baixo de uma grossa camada de amor-próprio e de paixões”. Quanto mais ele tenta se livrar dessas “cascas de cebola”, mais é tentado pela praga que as nutriu, mais recebe acusações de si próprio e dos Inimigos. A doença, a medida que deixa de se ocultar como se oculta para o leigo, se apresenta cada vez mais. Deus, todavia, é como um médico experiente, é O Grande Pedagogo, e nos ilumina pouco a pouco, dando-nos a certeza de que há cura para a nossa doença.

Com efeito a Verdade é a cura, e tudo fora dela é doença, falsidade, distração. Por isso o cristão não se sujeita ao conforto da opinião própria e do mundo: o seu “conforto”, aliás, é disciplina, jejum e oração.

Tags: , , , , , ,

Categoria: Cristianismo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Criada numa família judaica, fui abençoada por ter um tio judeu messiânico. Através dele cresci ouvindo as histórias de Yeshua. Hoje além de seguir o Cristianismo, me dedico a estudar o Tradicionalismo e as Letras Clássicas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas