Sonata em Mim Menor, Op. 1

<lento>
     <quase>
        Frase. Curta. Bruma. Quase.
        Quase que uma frase. Som.
        Soa a frase. Soa Quase.
            <pausa>
            </pausa>
        Mais Frase. Menos bruma. Mais quase.
        Quase que bruma, quase que frase.
        Soa a frase ou sou a bruma?
            <pausa>
            </pausa>
        Quase que é frase. Não é bruma; nem quase.
        Frase, bruma, bruma que é frase.
        Soa a frase, soa a bruma, sou quase.
            <pausa>
            </pausa>
    </quase>
</lento>
<andante>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia ao
        de leve a noite fria da abóboda estrelada que
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. O que aconteceu quase
        que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, a brisa, fresca,
        não convidava. Quando havia motivo, a pergunta
        estava ausente. O poeta, enquanto não respondia,
        pedia do horizonte o fogoso abraço que lhe faltava.
        O sol, as nuvens, a noite fria. Tarde percebia que
        era tarde para a pergunta: quando?
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quanto?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde no fim do outono, o sol ia baixo
        pedindo o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometida ao
        de leve à noite fria da abóboda estrelada,
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. Quase que aconteceu
        o que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, naquele fim do outono, o sol, baixo
        pedia o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa fresca, prometida, perguntava
        de leve, aos poucos, à noite fria que entretanto
        na abóboda estrelada não respondia. Não havia quando;
        tampouco se percebia quanto. Quase que aconteceu
        entre o tanto que podia ser escrito. Tudo era pergunta —
        exceto o que o poeta havia perguntado.
    </impacientemente enamorado>
    <quase que enamorado quase que impaciente>
        Quando? Quando, quando, quando? Naquela tarde...
        O Outono pedia o horizonte prometido. 
        A pergunta ficava: o poeta partira? 
        
        Entretanto, a noite  fria, estrelada, pedia,
        sem motivo, por um sol fogoso que aos poucos lhe fugia. 
        Quanto mais se percebia a pergunta, mais o abraço
        se escapava entre o tanto que não era perguntado. 
        Poeta, lhe dizia, deixa escrito, coroa com nuvens tantas 
        quantas as leves promessas suspiradas pela brisa.
        O sol, lá em baixo, presente em tudo quanto
        se percebia, quase que numa frase em bruma 
        se fazia. A noite reclamava, perguntava tanto 
        quanto respondia, e na abóboda estrelada não 
        encontrava motivo que justificasse. Leve, como
        a brisa, fogoso como o horizonte, o outono, 
        naquela tarde, chegava ao fim.
        
        Quanto à pergunta, tanto o poeta quanto 
        a noite não respondiam, tampouco percebiam
        a pergunta. Não havia motivo nem como; era a pergunta, 
        a frase, a bruma. E uma a uma, entretanto, entre o quando
        e o tanto quanto era perguntado, o poeta, a noite, a brisa, 
        o frio sem motivo, o abraço fogoso, tudo estava presente, 
        exceto o frio, a noite, a brisa, o poeta e a pergunta. 
        
        Quanto mais as nuvens os cercavam naquela fria tarde
        de outono, o sol, ao de leve, percebia como tudo
        podia ser escrito. Bruma, bruma, impaciente 
        lhe perguntava, seria possível estar presente
        quando o poeta o abraçasse?
        
        Numa frase curta, enquanto o sol ia pedindo,
        o poeta respondia à pergunta num som que era
        quase quase tudo. Fim do outono, a brisa prometida
        não correspondia nem soprava. O horizonte da noite fria
        não percebia, tampouco respondia e a brisa, 
        ao de leve, num abraço que só as nuvens compreendiam,
        percebia que o presente estava escrito 
        e que noite já partira. 
        
        Quando? Quando era a pergunta que ficava.
        Quando? Quando não respondia ao quanto era perguntado. 
        Quando, era a pergunta. Quanto, quanto fora perguntado. 
        
        Quando?
        Quando?
        Quando?
        
        Quase...
        Quase que soa...
        Quase que soa a frase...
    </quase que enamorado quase que impaciente>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia 
        a noite fria que aos poucos se convidava. 
        Não, não havia motivo; tampouco se percebia
        o que acontecia. Quase que podia ser escrito. 
        Quase que presente. O poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, fim de outono, a brisa não convidava.
        Quando havia motivo, a pergunta estava ausente. 
        O poeta não respondia. O horizonte era o abraço 
        que lhe faltava. A noite fria tarde percebia que
        era tarde para a pergunta que fazia.
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? E não respondia. 
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde era o fim. O outono pedia o fogoso
        abraço a brisa, fresca, prometia. À noite, a abóboda
        estrelada não tinha motivo. Quase, quase que aconteceu
        ficar escrito. O poeta estava finalmente presente. 
        A noite havia terminado.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        O sol ia baixo. A noite era fria.
        Quase que bruma. Quase que frase. 
        Quando?
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
    </impacientemente enamorado>
</andante>

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Categoria: Artes e Letras, Poesias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Se publico tiro um retrato. Eis o meu registro público com que me publico, assim me tornando público. Dou assim parte parte de mim, a minha parte pública, a parte com que o público pode conversar, concordar ou discordar, refutar ou simplesmente ignorar. O público, na maior parte, nunca verá de mim mais que esta parte. Publicado o confirmo. É público este retrato — que tão mal me retrata.

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