Nietzsche: Verdade e mentira no sentido extramoral

Em Verdade e mentira no sentido extramoral, a filosofia de Nietzsche é trágica, se opõe à idolatria da verdade e ao otimismo vazio dos modernos. Longe daquilo que pensa a tradição, seu enfoque é na vulnerabilidade do ser vivo, do homem sobretudo, que é aqui compreendido em sua fraqueza, em sua imanência, que há séculos se afunda na ilusão; a ilusão de que ele é algo mais do que as contradições da natureza, do corpo, da vida mortal. E nessa ilusão, nesse processo, o homem vem a inventar o conhecimento, a verdade e a mentira.

Essa invenção contudo não corresponde a nada daquilo que o homem pensa que criou; ao contrário, ela foi o feito mais audacioso e hipócrita da história! Parecia-lhe, a princípio, que o intelecto caminhava para uma missão ulterior, que o intelecto conduzia o homem para além de sua própria vida humana, mas tudo isso é senão autoilusão; o homem pensa que o mundo gira em torno dele próprio, quando, na verdade, o mesmo sucede com todo mortal – até mesmo um mosquito, pensa Nietzsche, sente em si o centro do mundo.

E tal como o mosquito sente isso, o homem pensa isso; mas o seu intelecto não é muito mais poderoso do que o sentimento daquele; antes, o intelecto é o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos vigorosos, conservam-se, assim como os fortes empreendem a luta pela existência com chifres e presas afiadas.

E se assim se conserva o homem no meio natural, o meio social não é em nada diferente quanto aos mais fracos; por exemplo, um homem completamente surdo, que jamais sentiu a sensação do som e da música, ao se deparar com certa vibração de cordas, uma vez que a chama de “som” tanto quanto os ouvintes chamam o audível de “som”, jura ele que não poderá mais ignorar aquilo que é o som. Para Nietzsche, contudo, isso não passa de um simulacro, assim como toda a linguagem.

Há nisso, a seguir, uma repercussão ontológica: tanto quanto falam de som, quando falam de árvores, cores, neve e flores, os homens acreditam saber algo acerca dessas coisas, todavia, com tais definições, nada possuem a não ser metáforas, as quais não correspondem, em absoluto, às essencialidades originais das coisas.

Quer isso dizer, em suma, que palavras são metáforas, e metáforas em nada correspondem ao real. Aliás, ou são metáforas ou repetições. Por exemplo, quando alguém chama um homem de honesto, ao ser interrogado por que motivo ele agiu honestamente, a resposta costuma ser “em função de sua honestidade”. Trata-se pois de uma petição de princípio: nada se sabe a respeito do homem honesto, senão que ele está de acordo com a honestidade – mas o que é a honestidade? Tal denominação, como outras, vem senão de inúmeras ações particulares, desiguais, as quais o homem iguala por omissão e passa a enquadrar num mesmo grupo de ações, de qualidades, gêneros, espécies, etc.

Assim, a verdade soa senão como um exército móvel de metáforas, de simulacros e antropomorfismos; numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas, e que, após uma longa utilização, tornaram-se consolidadas, canônicas e obrigatórias, quando, não obstante, as verdades são ilusões das quais o homem se esqueceu que elas assim o são.

O homem se esqueceu, para mais, que as verdades dependem da capacidade de dissolver uma imagem num conceito, de conceituar metáforas. Pouco a pouco, ele caiu no erro de acreditar ter as coisas como objetos puros diante de si, esquecendo-se das metáforas intuitivas originais tais como são, metáforas, tomando-as porém pelas próprias coisas.

Tags: , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia Contemporânea

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × 3 =

Pular para a barra de ferramentas