Os sem glória

Muito me apraze ouvir os sábios,
mas sábios não encontro na minha cidade;
não os descortino à minha volta,
e fico à mercê de meu próprio intelecto

Mas quão duro é viver no meio dos muitos,
e penoso poder falar mas não ser ouvida;
poder sentir, mas nunca comunicar o sentido

É tão sofrível quanto não possuir um pai
a guiar os pensamentos inocentes,
quando o genitor pouco ensina de virtudes
e, ao invés, nos manda às escolas

Às escolas onde sequer os professores
são sábios, senão que se encontram
desiluminados por seus tolos pais;
perdidos na sabedoria do mundo,
no salário dos sem glória.

Sonhos

Às vezes eu não sei com o que sonhar,
pois este mesmo mundo que se nos apresenta
já parece sublime demais para ser verdade

E quando eu me perco em suas sombras,
que vem, brincam e deixam de ser,
elas parecem o Sonho da criação de Deus

Porém eu deveria ser capaz
de ter meus próprios sonhos,
já que nem sempre consigo pensar na Verdade
e nem é sempre que vejo perfeição nos grãos de areia

Se pessoas como eu continuam sem sonhos,
quando não pensarem nem se calarem,
hão de se perder no Pesadelo do mundo

Basta olhar a maldade dos homens,
o aglomerado de carros na rua
e as notícias dos televisores,
que veremos o Pesadelo

O Pesadelo é o sonho do mundo
com olhos comuns,
vendo porém a verdade
sem a Face do autêntico Sonho.

Ciclo

Antes de estar a viver,
Estou eu
A gestar minha própria vida.

Autopistis

Estendida no fim da Travessia
Está a maior cruz do agora
Travestida de grande credo.
É a cruz da fé,
Mas da fé que se sonha,
Da fé que se imagina como fábulas
Dos grandes egos dos filhos de homens.
Nós somos as vicissitudes destes homens!
Somos nós quem roubamos as endoxas dos antigos,
Somos nós quem sequestramos a Tradição,
Subjugando-a à luz do perspectivismo.
Por consequência crescemos distantes da Videira
E vivemos a maior noite escura da cruz:
A Travessia cega contra a autopistis.

Universo:

Todo; universo. Todo universo e todo isto. Isto todo o universo: universo todo e todo nisto.
Nisto todo, todo o universo, todo o universo é isto. Isto; universo; palavras todo.
Todo palavras o universo todo, todo o universo palavras e em todas as palavras universos.
Todas palavras; todas universos; são universos palavras que no universo das palavras são todo o universo.
Sendo universo o universo todo, todo universo palavras, todas as palavras o universo todo.
Todo o universo isto, isto palavras todo, todo universo nas palavras disto: universo todo todo nisto.

Reflexo

O esboço desenhado nas entranhas;
O amor, representado como as feridas impressas na alma;
A perda, como o caminho; o mundo, que se torna o rastro
Do amado, manifestação do próprio Deus.

Olhos fechados

Sinto os fatos em minha cabeça
Correndo no papel com tinta preta

Sinto a chuva que cai na noite
Mas sinto medo de fechar a janela
Por onde o orvalho entra

Pois sinto ainda mais
Que já demais fechei os olhos
Para mais e mais fenômenos vividos

Eu não aceitei as manhãs de chuva
Não aceitei o passar das noites
Não aceitei dias dos quais vivi

Hoje minhas principais lembranças
São turvas como a neblina;
Eu estava sozinha

De olhos tão cerrados
Que o único espaço
Entreaberto da minha alma
Era por onde as lágrimas se despiam

Não sei qual a cor do meu passado
Pois se de algo me recordo
É do tempo acinzentado

E da cidade frívola
Onde não havia sequer
Um coração aberto
Para narrar a mim presente
Minha própria história esquecida

Vulto

Em ser sou,
Em vir a ser me faço vulto“.

Foi isto que escrevi em minha mais neoplatônica época;
E agora mesmo estava a lembrar disto.

Calha que hoje sou estranha ao meu passado,
Pois sei que d’alguma maneira eu era sim um vulto,
Sendo porém um vulto em letargia.

Que são dos homens sem mestres?

Tardei para repousar nos ombros de um sábio,
O que levou-me a desgastar e adoecer minh’alma miserável
Porque eu não era capaz de ver o Caminho donde partem os bons,
E
 também pela calada dos nossos nupérrimos genitores
Que por sofrença e incultura nunca tornar-se-ão pais.

Sonata em Mim Menor, Op. 1

<lento>
     <quase>
        Frase. Curta. Bruma. Quase.
        Quase que uma frase. Som.
        Soa a frase. Soa Quase.
            <pausa>
            </pausa>
        Mais Frase. Menos bruma. Mais quase.
        Quase que bruma, quase que frase.
        Soa a frase ou sou a bruma?
            <pausa>
            </pausa>
        Quase que é frase. Não é bruma; nem quase.
        Frase, bruma, bruma que é frase.
        Soa a frase, soa a bruma, sou quase.
            <pausa>
            </pausa>
    </quase>
</lento>
<andante>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia ao
        de leve a noite fria da abóboda estrelada que
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. O que aconteceu quase
        que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, a brisa, fresca,
        não convidava. Quando havia motivo, a pergunta
        estava ausente. O poeta, enquanto não respondia,
        pedia do horizonte o fogoso abraço que lhe faltava.
        O sol, as nuvens, a noite fria. Tarde percebia que
        era tarde para a pergunta: quando?
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quanto?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde no fim do outono, o sol ia baixo
        pedindo o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometida ao
        de leve à noite fria da abóboda estrelada,
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. Quase que aconteceu
        o que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, naquele fim do outono, o sol, baixo
        pedia o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa fresca, prometida, perguntava
        de leve, aos poucos, à noite fria que entretanto
        na abóboda estrelada não respondia. Não havia quando;
        tampouco se percebia quanto. Quase que aconteceu
        entre o tanto que podia ser escrito. Tudo era pergunta —
        exceto o que o poeta havia perguntado.
    </impacientemente enamorado>
    <quase que enamorado quase que impaciente>
        Quando? Quando, quando, quando? Naquela tarde...
        O Outono pedia o horizonte prometido. 
        A pergunta ficava: o poeta partira? 
        
        Entretanto, a noite  fria, estrelada, pedia,
        sem motivo, por um sol fogoso que aos poucos lhe fugia. 
        Quanto mais se percebia a pergunta, mais o abraço
        se escapava entre o tanto que não era perguntado. 
        Poeta, lhe dizia, deixa escrito, coroa com nuvens tantas 
        quantas as leves promessas suspiradas pela brisa.
        O sol, lá em baixo, presente em tudo quanto
        se percebia, quase que numa frase em bruma 
        se fazia. A noite reclamava, perguntava tanto 
        quanto respondia, e na abóboda estrelada não 
        encontrava motivo que justificasse. Leve, como
        a brisa, fogoso como o horizonte, o outono, 
        naquela tarde, chegava ao fim.
        
        Quanto à pergunta, tanto o poeta quanto 
        a noite não respondiam, tampouco percebiam
        a pergunta. Não havia motivo nem como; era a pergunta, 
        a frase, a bruma. E uma a uma, entretanto, entre o quando
        e o tanto quanto era perguntado, o poeta, a noite, a brisa, 
        o frio sem motivo, o abraço fogoso, tudo estava presente, 
        exceto o frio, a noite, a brisa, o poeta e a pergunta. 
        
        Quanto mais as nuvens os cercavam naquela fria tarde
        de outono, o sol, ao de leve, percebia como tudo
        podia ser escrito. Bruma, bruma, impaciente 
        lhe perguntava, seria possível estar presente
        quando o poeta o abraçasse?
        
        Numa frase curta, enquanto o sol ia pedindo,
        o poeta respondia à pergunta num som que era
        quase quase tudo. Fim do outono, a brisa prometida
        não correspondia nem soprava. O horizonte da noite fria
        não percebia, tampouco respondia e a brisa, 
        ao de leve, num abraço que só as nuvens compreendiam,
        percebia que o presente estava escrito 
        e que noite já partira. 
        
        Quando? Quando era a pergunta que ficava.
        Quando? Quando não respondia ao quanto era perguntado. 
        Quando, era a pergunta. Quanto, quanto fora perguntado. 
        
        Quando?
        Quando?
        Quando?
        
        Quase...
        Quase que soa...
        Quase que soa a frase...
    </quase que enamorado quase que impaciente>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia 
        a noite fria que aos poucos se convidava. 
        Não, não havia motivo; tampouco se percebia
        o que acontecia. Quase que podia ser escrito. 
        Quase que presente. O poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, fim de outono, a brisa não convidava.
        Quando havia motivo, a pergunta estava ausente. 
        O poeta não respondia. O horizonte era o abraço 
        que lhe faltava. A noite fria tarde percebia que
        era tarde para a pergunta que fazia.
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? E não respondia. 
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde era o fim. O outono pedia o fogoso
        abraço a brisa, fresca, prometia. À noite, a abóboda
        estrelada não tinha motivo. Quase, quase que aconteceu
        ficar escrito. O poeta estava finalmente presente. 
        A noite havia terminado.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        O sol ia baixo. A noite era fria.
        Quase que bruma. Quase que frase. 
        Quando?
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
    </impacientemente enamorado>
</andante>
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